GUILHERME BOMBA

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O dia em que todos tinham razão

Da Redação

| Edição de 08 de outubro de 2026 | Atualizado em 08 de outubro de 2026

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Em uma cidade qualquer, de um país que poderia ser o nosso, aproximava-se o dia da eleição. Como acontecia de tempos em tempos, os cidadãos descobriram que estavam divididos. Não exatamente sobre como melhorar a cidade, mas sobre quem deveria ser responsabilizado por tudo aquilo que nela não funcionava.

O padeiro tinha certeza. O médico também. O professor, o comerciante e o homem que passava as tardes reclamando do governo na mesa do bar compartilhavam uma característica extraordinária: todos conheciam a solução para os problemas do país. Curiosamente, nenhuma das soluções parecia exigir que mudassem alguma coisa em si mesmos.

As ruas ganharam cores, as janelas receberam bandeiras e os aparelhos celulares passaram a funcionar como pequenos tribunais. Julgava-se a inteligência, o caráter e até a dignidade de pessoas que, até pouco tempo, eram apenas vizinhos. 

Ninguém sabia exatamente quando aquilo começara. Havia quem culpasse a televisão, quem responsabilizasse a internet e quem atribuísse tudo à ignorância alheia. Esta última explicação era especialmente popular, pois tinha a vantagem de nunca incluir quem a pronunciava.

Enquanto isso, os candidatos faziam promessas. Uns prometiam recuperar o passado, outros construir o futuro. Poucos pareciam dispostos a explicar o presente. E os eleitores, ocupados demais defendendo suas certezas, nem sempre encontravam tempo para fazer perguntas.

Havia problemas antigos naquela cidade. A escola precisava de reparos, o hospital enfrentava dificuldades e algumas ruas continuavam esperando pelo asfalto prometido na eleição anterior. Mas nada disso provocava discussões tão apaixonadas quanto uma frase retirada de contexto ou uma notícia compartilhada antes mesmo de ser lida. Afinal, descobrir se uma informação era verdadeira exigia algum esforço. Repassá-la, por sua vez, exigia apenas um dedo.

Também havia o medo. O curioso era que ambos descreviam um futuro assustador com a mesma convicção e, frequentemente, utilizando as mesmas palavras. Mudavam os culpados, permanecia o anúncio do desastre.

Chegou, enfim, o dia da votação. Pessoas muito diferentes entraram nos mesmos locais, enfrentaram filas semelhantes e exerceram um direito que custara muito para ser conquistado. Durante alguns segundos, diante da urna, cada cidadão possuía exatamente um voto. Era uma igualdade breve, mas extraordinária.

Depois, voltaram para casa.

Alguns comemorariam. Outros lamentariam. Os vencedores diriam que o povo havia escolhido com sabedoria. Os derrotados poderiam concluir que o mesmo povo não soubera escolher. 

Não há problema em discordar. A política existe precisamente porque não pensamos da mesma maneira. Tampouco significa que toda ideia seja aceitável ou que devamos tolerar a mentira e a violência em nome de uma falsa harmonia. O problema começa quando deixamos de combater argumentos para combater a própria humanidade de quem os apresenta.

Talvez a maior contradição daquela cidade fosse outra. Seus moradores exigiam honestidade dos governantes, mas aceitavam mentiras quando lhes eram convenientes. Reclamavam da intolerância, mas cultivavam a própria. Defendiam a liberdade enquanto desejavam que determinadas pessoas permanecessem caladas.

E, de quatro em quatro anos, depositavam na urna a esperança de que alguém corrigisse aquilo que eles mesmos não estavam dispostos a reconhecer.

A eleição terminaria. As bandeiras seriam guardadas, os cartazes desapareceriam e o calendário anunciaria um novo dia. A cidade continuaria existindo, com suas escolas, seus hospitais, suas necessidades e, principalmente, suas pessoas.

Talvez fosse conveniente lembrar que o voto escolhe representantes, mas não nos absolve de nossas responsabilidades.

Afinal, naquela cidade, todos queriam vencer a eleição.

Poucos pareciam preocupados com o que aconteceria se, para vencer, precisassem destruir a possibilidade de continuar vivendo juntos.