GUILHERME BOMBA

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O que fazemos com aquilo que fomos?

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| Edição de 28 de maio de 2026 | Atualizado em 28 de maio de 2026

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Existe uma violência silenciosa nas mudanças que ninguém nos ensina a administrar. Não aquela das grandes tragédias, mas a outra, mais discreta, que acontece quando percebemos que continuar exatamente onde estamos talvez já não seja mais possível. As pessoas gostam de romantizar recomeços. Frases bonitas, discursos sobre coragem e liberdade. Mas quase ninguém fala sobre o luto escondido dentro das mudanças necessárias. Porque mudar também dói. E dói justamente porque quase sempre precisamos deixar para trás não apenas lugares, mas versões inteiras de nós mesmos.

Carl Jung (1959) defendia que o processo de nos tornarmos quem realmente somos exige enfrentar partes profundas da nossa própria existência. Não há amadurecimento sem desconforto. Em algum momento da vida, todos nós percebemos que permanecer pode ser tão doloroso quanto partir. Talvez uma das maiores dificuldades humanas esteja exatamente aí: entender que reconhecer o fim de um ciclo não transforma automaticamente tudo o que foi vivido em mentira. Vivemos tempos emocionalmente apressados. Se algo termina, sentimos necessidade de reescrever toda a história como fracasso. Relações acabam, caminhos mudam e muitas pessoas transformam anos de afeto em tribunais emocionais, numa tentativa de justificar a própria mágoa. Mas a vida raramente é tão simples. Pessoas podem nos machucar e ainda assim terem sido importantes. Lugares podem deixar de nos caber sem deixarem de merecer respeito. Ciclos podem terminar sem que precisemos incendiar tudo o que construímos dentro deles. Talvez maturidade emocional seja justamente resistir à tentação de transformar despedidas em ressentimento.

Winnicott (1960) alertava para o risco de vivermos presos a versões de nós mesmos construídas apenas para atender expectativas externas. Existe um cansaço silencioso em permanecer tempo demais tentando corresponder a papéis que um dia fizeram sentido, mas que aos poucos começam a nos afastar daquilo que somos. O problema é que ninguém muda porque tem certezas. Mudamos porque algo dentro de nós pede ar.

O futuro assusta. O desconhecido assusta. Mas continuar sufocando também assusta. Há momentos em que permanecer deixa de ser lealdade e passa a ser abandono de si mesmo. Ainda assim, existe algo profundamente humano em conseguir olhar para trás sem transformar tudo em ruína. Viktor Frankl (1946) escreveu que quem encontra sentido suporta travessias que antes pareceriam impossíveis. Talvez o verdadeiro sentido das mudanças esteja justamente na capacidade de reconhecer que aquilo que vivemos continua existindo dentro de nós, mesmo quando já não ocupamos o mesmo lugar.

Hoje me despedi do Mater Dei e do Canadá. E confesso: doeu mais do que imaginei. Dos meus 38 anos de vida, 16 foram ali. Existe vida demais guardada em um tempo assim para que uma despedida aconteça sem deixar marcas. Mas escolho não olhar para esse ciclo como ruína. Escolho lembrar dos alunos que mudaram a minha vida enquanto eu acreditava estar mudando a deles. Das conversas nos corredores. Das risadas inesperadas nos dias difíceis. Das amizades sinceras. Das pessoas que permanecerão importantes para mim mesmo com a mudança dos caminhos.

A verdade é que algumas mudanças não acontecem porque deixamos de amar um lugar, mas porque entendemos que chegou a hora de seguir caminhando. E quando a caminhada foi bonita, o que permanece não é o peso da despedida, mas a leveza da gratidão. Levo comigo o carinho pelas pessoas, o respeito pela história construída e a certeza de que parte de quem sou também nasceu ali.

E talvez crescer seja exatamente isso: entender que algumas despedidas não existem para destruir aquilo que fomos, mas para permitir que continuemos nos tornando quem ainda podemos ser.