O homeschooling voltou a ser discutido no Senado. Há quem considere ensinar os filhos em casa uma expressão da liberdade familiar. O argumento parece sedutor: se a escola possui tantos problemas, por que não afastar as crianças dela? Talvez porque tenhamos uma memória assustadoramente curta.
Há poucos anos, uma pandemia fechou as escolas e empurrou milhões de estudantes para dentro de casa. O ensino remoto emergencial não foi homeschooling; as circunstâncias eram diferentes. Ainda assim, aquele período mostrou o que acontece quando jovens são privados da convivência cotidiana com seus pares.
Não perdemos apenas conteúdos. Perdemos conversas no corredor, conflitos no recreio, trabalhos em grupo, amizades improváveis, frustrações e descobertas que ajudam uma pessoa a amadurecer. Perdemos o exercício de esperar a vez, dividir espaços, ouvir quem pensa diferente, pedir desculpas e perceber que o mundo não se organiza ao redor de nossas vontades.
Hoje, muitos daqueles adolescentes chegam às fases decisivas da vida carregando lacunas que não aparecem em provas. Têm dificuldades para lidar com frustrações, sustentar relações presenciais, resolver conflitos e compreender limites. Não porque sejam uma geração perdida, mas porque lhes foi retirado, em uma etapa fundamental, o laboratório da convivência. E esse laboratório tem nome: escola.
A escola está cheia de problemas. Há violência, desigualdade, preconceito, indisciplina e injustiça. Naturalmente. Ela não foi construída em outro planeta. É atravessada pelas contradições da sociedade porque recebe pessoas formadas por essa sociedade.
A diferença é que ali essas contradições podem ser enfrentadas em um ambiente supervisionado. Há profissionais preparados para intervir. A escola não protege os estudantes de todos os conflitos do mundo. Ela os ensina, ou deveria ensiná-los, a atravessá-los sem destruir o outro.
Educar não é apenas apresentar a fórmula de Bhaskara ou explicar a Revolução Francesa. É colocar diferentes seres humanos no mesmo espaço e ajudá-los a construir algo em comum. Talvez seja por isso que a escola plural incomode tanto: nela, o filho de uma família precisa reconhecer outras famílias, outros valores e outros modos de existir.
Talvez o problema nunca tenha sido somente o que as crianças aprendem na escola. Talvez seja aquilo que aprendem a questionar.
Há uma ironia amarga nesse debate. Enquanto parlamentares discutem se as famílias poderão substituir a escola, professores continuam responsabilizados por quase todos os fracassos da educação. São mal remunerados, filmados, ameaçados, desautorizados diante dos alunos e tratados como empregados de cada família. Exige-se que ensinem, acolham, protejam, administrem conflitos e façam milagres. Em troca, recebem desconfiança. A profissão que deveria ser protegida tornou-se alvo.
Se continuarmos retirando dos professores a autoridade, a dignidade e as condições de trabalho, talvez o homeschooling nem precise ser aprovado. Um dia, poderá se tornar inevitável pela razão mais vergonhosa: não porque todas as famílias escolheram ensinar seus filhos em casa, mas porque ninguém mais escolheu entrar numa sala de aula para ensiná-los.
Então descobriremos, tarde demais, que destruir a escola era fácil. Difícil será explicar às próximas gerações por que lhes tiramos um dos poucos lugares onde ainda poderiam aprender que o mundo não termina na porta de casa.