GUILHERME BOMBA

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Quando ele parou de pedir permissão

Da Redação

| Edição de 26 de fevereiro de 2026 | Atualizado em 26 de fevereiro de 2026

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Aos quarenta e poucos anos, Marcelo descobriu uma verdade incômoda: ele nunca tinha vivido de fato, apenas tinha sido autorizado.

Durante décadas, pediu permissão para tudo. Para falar, para opinar, para mudar de emprego, para descansar no domingo. Pedia permissão até para estar cansado. Se alguém franzia a testa, ele recuava. Se alguém silenciava, ele interpretava como reprovação. E lá ia Marcelo, dobrando-se como papel molhado, só para caber no porta-retratos da expectativa alheia.

Era o primeiro a chegar, o último a sair. O que sempre ajudava, o que sempre entendia, o que sempre cedia. Um profissional exemplar, um amigo disponível, um filho obediente, um marido “compreensivo”. Recebia elogios, sim. Mas eram elogios condicionais. “Você é ótimo… quando faz assim.” “Você é incrível… se continuar desse jeito.” Marcelo vivia de migalhas de aplauso, como quem se alimenta de biscoito doce e chama aquilo de refeição.

Até que um dia o corpo falou antes da boca. Uma crise de ansiedade no meio de uma reunião. Mãos suadas, coração acelerado, uma pergunta simples ecoando por dentro: e eu?

Não foi um surto revolucionário. Não houve mesa virada. Não houve discurso inflamado. Houve apenas um “não” dito em voz baixa.

Não posso assumir mais essa tarefa.

Não vou ao jantar hoje.

Não concordo.

Três frases curtas. Três terremotos.

A reação foi imediata. “Você mudou.” “Está estranho.” “Está arrogante.” “Depois de tudo que fizemos por você…” Marcelo ouviu de tudo. Aquele mesmo homem que por anos fora elogiado por ser “bonzinho” agora era acusado de frieza. Descobriu, tarde e com gosto amargo, que muitas relações não amavam sua essência, mas a sua conveniência.

A fofoca começou a circular como café requentado. Diziam que ele estava em crise, que tinha sido influenciado por alguém, que estava “ingrato”. Engraçado como a palavra “ingratidão” costuma aparecer quando alguém decide parar de se anular.

Marcelo quase recuou. Quase pediu desculpas por ter se escolhido.

Mas havia algo diferente. Um silêncio novo dentro dele. Um espaço que antes era ocupado por medo, agora preenchido por clareza. Ele entendeu que impor limites não é atacar ninguém; é parar de atacar a si mesmo.

A mudança ainda nem tinha acontecido de fato. Ele continuava no mesmo trabalho, na mesma casa, com as mesmas responsabilidades. O que mudou foi o eixo. Pela primeira vez, não estava negociando sua dignidade para comprar aceitação.

E isso incomoda.

Incomoda porque quem sempre se beneficiou do seu excesso sentirá falta.

Incomoda porque quem nunca precisou respeitar seus limites terá que aprender.

Incomoda porque a sua liberdade expõe a dependência emocional dos outros.

Marcelo aprendeu algo simples e brutal: crítica construtiva constrói, mas crítica constante corrói. E nem toda opinião merece audiência. Fofoca não é convocação judicial. Ele não é obrigado a comparecer.

O primeiro passo foi pequeno, quase invisível. Mas foi o mais importante. Não pedir desculpas por existir. Não pedir licença para ser inteiro. Não negociar o próprio valor.

Há quem chame isso de mudança de comportamento. Ele chama de maturidade.

No fim das contas, Marcelo não ficou mais frio. Ficou mais honesto. E honestidade, quando não serve mais aos outros, costuma ser confundida com rebeldia.

Se alguém disser que você mudou, talvez seja verdade. A pergunta é: você piorou ou apenas parou de se diminuir?

Marcelo ainda está no começo. Ainda sente culpa às vezes. Ainda ensaia respostas. Mas agora sabe que aprovação é aplauso emprestado; caráter é construção própria.

E ele decidiu, finalmente, parar de viver de aluguel.

Porque há um momento na vida em que o homem entende: quem precisa da validação de todos, no fundo, ainda não se validou.

E o dia em que isso muda, ainda que só por dentro, é o dia em que ele deixa de pedir permissão para existir.