ROGÉRIO RIBEIRO

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A necessidade do pacto

Da Redação

| Edição de 12 de maio de 2026 | Atualizado em 12 de maio de 2026

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O desenvolvimento local raramente fracassa por falta absoluta de ideias, diagnósticos ou discursos. Em muitos municípios, ele fracassa porque falta integração real entre o público e o privado. Falta aquilo que o professor Jandir Ferrera de Lima denomina como sendo concertação, que nada mais é do que uma articulação capaz de produzir consensos, pactos e compromissos para que as “regras do jogo” sejam cumpridas por todos, evitando ações impositivas, isoladas ou capturadas por interesses particulares. E para isso é necessária uma governança municipal que não se resume apenas a ação da prefeitura, mas um envolvimento entre o poder público, setor privado, sociedade civil organizada, associações, conselhos, universidades, trabalhadores e lideranças comunitárias.

O problema é que, em muitos casos, a relação entre o público e o privado é tratada de maneira estreita, quase utilitária. Alguns segmentos empresariais procuram o poder público apenas quando precisam de apoio, consultorias, incentivos, infraestrutura, flexibilizações, eventos, divulgação ou políticas específicas que beneficiem seus próprios setores. Querem a prefeitura como parceira quando há vantagem privada, mas se ausentam quando a pauta envolve o coletivo local.

O setor privado é indispensável ao desenvolvimento, mas não pode agir como se o município fosse apenas uma plataforma de extração de benefícios. Da mesma forma, o poder público não pode funcionar como balcão de atendimento setorial, distribuindo favores somente aos mais próximos dos gestores. Para que ocorra o desenvolvimento é necessário que associações comerciais, industriais, rurais, cooperativas, sindicatos, instituições de ensino, universidades, entidades profissionais e organizações comunitárias assumam responsabilidades concretas na geração de emprego e renda.

Um exemplo é quando um grupo de empresas solicita apoio público para uma feira de negócios, mas não assume compromissos com contratação, qualificação, compras locais ou melhoria salarial, transformando a ação em marketing setorial financiado pelo poder público. O mesmo ocorre quando empresas demandam cursos técnicos gratuitos, mas mantêm salários baixos, levando trabalhadores qualificados a migrar para outras cidades.

O capital social, que é a capacidade associativa, cooperativa e organizativa da sociedade civil voltada para os rumos do desenvolvimento municipal, é decisivo. Ele se manifesta na confiança, na cooperação, na mobilização e na capacidade de construir objetivos comuns. Redes de ensino básico e superior já contribuem para esse processo ao formar conhecimento, habilidades e vínculos comunitários. Mas não basta formar pessoas se não reter os talentos.

A valorização dos trabalhadores locais deve ser vista como estratégia de desenvolvimento, não como custo. Salários dignos ampliam a circulação monetária, fortalecem o comércio, aumentam a arrecadação e estimulam um ciclo virtuoso, conforme a lógica da causação circular cumulativa de Myrdal. Já remunerações baixas enfraquecem o mercado interno, reduzem o dinamismo econômico e condenam a região à estagnação. Uma cidade que desvaloriza seus trabalhadores compromete sua própria prosperidade.

Para transformar crescimento econômico em desenvolvimento municipal, as entidades devem atuar de forma proativa na governança local, superando interesses isolados e promovendo pactos setoriais, qualificação profissional e fóruns de inovação. Isso exige diálogo permanente entre Estado, setor privado e sociedade civil, com compromisso público com o trabalho, a justiça social e o fortalecimento comunitário.