ROGÉRIO RIBEIRO

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A volta a Keynes

Da Redação

| Edição de 14 de abril de 2026 | Atualizado em 14 de abril de 2026

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Há um traço de farsa intelectual no Brasil contemporâneo que merece ser exposto sem delicadeza: de um lado, os liberais de rede social e, de outro, os socialistas de iPhone. Ambos falam muito em liberdade, justiça, mercado, povo, opressão e emancipação. Ambos ostentam repertório, vocabulário e segurança retórica. Ambos, com frequência, mostram fragilidades justamente no essencial: lógica, racionalidade e coerência prática.

O debate público ficou excessivamente intelectualizado na forma e dramaticamente empobrecido no conteúdo. Há muito antagonismo e nenhuma disposição real para o contraditório. Quase ninguém aceita a velha lição aristotélica de que a virtude política e moral não costuma morar nos extremos, mas no equilíbrio. O sujeito não quer compreender. Quer vencer. Não quer buscar o melhor arranjo social. Quer destruir moralmente o adversário.

No século XVII, consolidou-se o liberalismo clássico, marcado pela limitação da intervenção do Estado nas atividades produtivas. Após esse período se produziu riqueza extraordinária, mas também miséria urbana, jornadas desumanas e exploração brutal do trabalho, inclusive de mulheres e crianças. Foi nesse contexto que Karl Marx formulou sua crítica ao capitalismo, pregando o seu colapso e, logo após, veio a crise de 1929. Quando o colapso mostrou que mercados não se estabilizam sozinhos, surge Keynes propondo que o governo deve ter papel ativo na economia.

O curioso é que, décadas depois, a nova onda liberal ressurgiu com o rótulo de neoliberalismo, e depois reciclada em versões ainda mais histéricas que sonham com um Estado mínimo, ou quase inexistente. Em resposta, setores da esquerda passaram a defender um Estado hipertrofiado, como se a mera expansão da máquina pública fosse sinônimo de justiça social. Eis a tragédia: um lado finge que o Estado sempre atrapalha enquanto o outro finge que o Estado sempre salva.

O problema está na forma caricatural como parte desse pensamento tem sido apropriada na atualidade: para certos comentaristas, toda regulação é tratada como tirania, todo imposto é rotulado como confisco e toda política pública passa a ser denunciada como socialismo. Nessa visão o mercado aparece como uma entidade autossuficiente.

As duas narrativas se desfazem com facilidade. A extrema esquerda não pode sustentar a defesa de um Estado hipertrofiado como se a administração pública efetiva revelasse, de forma generalizada, elevada eficiência, virtude institucional e superioridade técnica. Não revela. Com as devidas exceções, o setor público ainda enfrenta problemas recorrentes de baixa produtividade, apropriação corporativa, morosidade operacional e desperdício de recursos. 

Já a extrema direita cultiva um discurso antiestatal ao mesmo tempo em que muitos de seus expoentes transitam continuamente por cargos públicos, valendo-se justamente da máquina estatal para atacar o Estado. E há mais: diversos defensores do novo liberalismo, embora condenem a intervenção estatal no plano retórico, recorrem constantemente a subsídios, financiamentos favorecidos, benefícios fiscais e mecanismos de proteção voltados aos próprios interesses.

No fundo, o que existe é um emaranhado de incoerências embaladas como convicção. Talvez tenha chegado a hora de abandonar caricaturas, reler Keynes com seriedade e responsabilidade e recuperar Aristóteles com humildade. Nem o mercado é um deus, nem o Estado é um redentor. Uma sociedade justa, fraterna, produtiva e rica não nascerá da idolatria de extremos, mas da coragem de enfrentar essas contradições com honestidade intelectual e responsabilidade prática.