ROGÉRIO RIBEIRO

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O ódio não entra no PIB

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| Edição de 03 de novembro de 2026 | Atualizado em 03 de novembro de 2026

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Há uma estranha modalidade de militância em circulação no Brasil: a de quem diz amar o país, mas deseja a ruína do vizinho porque ele votou no candidato errado. O sujeito proclama ser democrata e, na primeira divergência, recomenda boicotar a empresa alheia ou demitir um trabalhador. Não defende o Brasil. Defende seu ressentimento.

Na economia, aprendemos que o crescimento pode ser medido pela variação do PIB, valor dos bens e serviços finais produzidos em determinado território. Pela ótica da despesa, a conta é conhecida: consumo das famílias, investimento, gastos do governo e exportações, descontadas as importações. A subtração das importações é um ajuste contábil para não atribuir à produção nacional aquilo que foi produzido fora.

A equação é simples no papel e exigente na vida real. Famílias precisam de renda para consumir. Empresas precisam de expectativas e condições de financiamento para investir. O Estado precisa de capacidade fiscal para oferecer serviços e infraestrutura. Exportar exige competitividade, produtividade e acesso a mercados. E crescimento, embora necessário, não se converte automaticamente em desenvolvimento: sem educação, saúde, oportunidades e redução das desigualdades, o PIB pode subir enquanto a vida de muitos permanece no chão.

Mas há uma variável que não aparece nos manuais de contas nacionais e que alguns brasileiros parecem empenhados em multiplicar: o ódio. Não proponho incluí-lo literalmente na fórmula do PIB. Proponho reconhecer seu efeito sobre as relações que sustentam a economia. A intolerância destrói confiança, afasta consumidores, contamina ambientes de trabalho e transforma decisões econômicas em demonstrações de vingança.

Terminada uma eleição, os fanáticos continuam em campanha, como se a urna não tivesse encerrado a disputa institucional. Uns pedem boicote a estabelecimentos cujos proprietários apoiaram a direita. Outros sugerem que empresários punam empregados por votarem na esquerda. Trocam-se as cores, preserva-se o método. A liberdade de opinião, tão celebrada quando protege a própria turma, torna-se um defeito moral quando exercida pelo adversário.

Que tipo de inteligência econômica existe em comemorar a queda das vendas de uma empresa nacional? Quem perde quando um estabelecimento fecha? O proprietário, certamente. Mas também o trabalhador, o fornecedor, o município que arrecada tributos e a família que depende daquele salário. E que espécie de defesa da liberdade consiste em ameaçar o emprego de alguém por sua escolha eleitoral? Isso não é convicção, é autoritarismo.

A contradição chega a ser grotesca: o mesmo indivíduo que exige prosperidade torce pelo fracasso de brasileiros que pensam diferente. Quer mais empregos, desde que não beneficiem o outro lado. Quer crescimento, desde que o adversário não possa comemorar. É torcida organizada: se o gol não for do meu time, melhor incendiar o estádio.

Democracia não exige concordância, tampouco submissão a governantes. Exige respeito às regras, fiscalização dos eleitos e disposição para reconhecer os acertos, mesmo quando vêm de quem combatemos nas urnas. Apoiar o que beneficia o país não é renunciar à crítica. É abandonar a infantilidade de confundir oposição com sabotagem.

Uma nação não prospera quando metade de seus cidadãos deseja que a outra metade fracasse. O Brasil precisa de investimento, produtividade, trabalho e instituições confiáveis. Precisa, sobretudo, entender que o resultado eleitoral define governos, não inimigos internos. O ódio não integra a fórmula do PIB. Mas, quando passa a orientar nossas escolhas, a conta chega para todos.