ROGÉRIO RIBEIRO

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População real, percepções imaginárias

Da Redação

| Edição de 01 de setembro de 2026 | Atualizado em 01 de setembro de 2026

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou recentemente as estimativas populacionais dos estados e municípios brasileiros com base em 1º de julho de 2026. Como ocorre a cada divulgação, o anúncio reacende um comportamento recorrente entre agentes políticos, comunicadores populistas e parte da população: a crença de que “há mais gente” nas cidades do que os números oficiais indicam. Essa percepção, embora compreensível, raramente se sustenta diante dos métodos científicos que embasam as estimativas demográficas.

Nos municípios pequenos, essa reação costuma ser mais intensa, pois os repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) dependem diretamente da população estimada e uma redução pode significar menos recursos. Contudo, há evidências técnicas de que os repasses per capita para cidades menores são proporcionalmente maiores do que para as de médio e grande porte. O problema não está nos números, mas na forma como se compreende a dinâmica demográfica e se planejam as políticas públicas.

Contestar uma estimativa populacional exige método, dados e comprovação empírica. Não “achismo”. Pesquisei os registros de nascimentos e óbitos no Paraná nos últimos 12 meses: foram 144.474 nascimentos contra 88.361 óbitos, ou seja, um saldo vegetativo de 56.113 pessoas. O IBGE, por sua vez, estima crescimento de 61.939 habitantes no período. A diferença corresponde justamente ao componente que o saldo vegetativo não capta: a migração, ou seja, a chegada de pessoas de outras regiões e de outros países. O resultado, portanto, permanece dentro da margem prevista pelos modelos do IBGE, que combinam fecundidade, mortalidade e migração.

Os dados mostram que contestar a estimativa sem base científica é um equívoco. O instituto utiliza metodologias consolidadas internacionalmente, revisadas e aprimoradas ao longo de décadas. Se houve problemas na coleta do Censo, eles já foram resolvidos. O caminho mais sensato é aceitar as estimativas e concentrar esforços em políticas públicas que melhorem a vida das pessoas reais, não das populações imaginárias criadas por discursos políticos.

A discussão sobre população e recursos públicos não é nova. No século XVIII, Malthus já alertava para a relação entre crescimento populacional e disponibilidade de recursos. Em sua época, o receio era de que a população crescesse mais rápido do que a produção de alimentos, levando à escassez e à miséria. Hoje, o desafio é outro: compreender como as transformações sociais, econômicas e tecnológicas influenciam a dinâmica demográfica e como os governos podem responder a essas mudanças com planejamento e racionalidade.

Malthus pode ter errado em algumas previsões, mas acertou ao defender que o estudo da população deve ser pautado pela ciência, não pela emoção. As estimativas do IBGE não são meros números. São instrumentos para compreender o país, planejar políticas e distribuir recursos de forma justa. Ignorá-las ou contestá-las sem fundamento é negar a própria realidade.

Em vez de questionar os dados com base em percepções, é hora de fortalecer a cultura da evidência. A população de cada município deve ser vista não como um número que define repasses, mas como um conjunto de pessoas que precisam de saúde, educação, saneamento e oportunidades. A estatística é o ponto de partida para isso, não o obstáculo.

Aceitar as estimativas é reconhecer que o Brasil real se constrói com ciência, método e transparência. E que as políticas públicas devem mirar nas pessoas que existem de fato, não nas que habitam apenas o imaginário político.