O último Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central em 4 de setembro, deveria acender um alerta que vai muito além dos gráficos e das médias de mercado. A expectativa para o IPCA em 2026 está em 5,00%, já acima do teto da meta. Para 2027, projeta-se 4,29%, encostando na borda superior. E para 2028, mesmo com o horizonte mais distante, o mercado já enxerga 3,80%, confortavelmente acima do centro de 3,0%. Não se trata de um desvio pontual, de um choque isolado que a autoridade monetária possa atribuir a fatores exógenos e temporários. É uma trajetória, e trajetórias contam uma história diferente da que o Banco Central gostaria de contar.
A meta de inflação é de 3,0%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que define um teto de 4,5% e um piso de 1,5%. Quando três anos seguidos de projeções caminham para o teto, colam nele ou permanecem acima do centro, o intervalo de tolerância deixa de ser exceção e passa a ser a regra. Isso ocorre com a Selic mantida em patamar elevadíssimo, 13,75% ao ano nas projeções mais recentes. Paga-se um custo real enorme sem que o retorno esperado, a convergência da inflação à meta, se materialize. Se o remédio mais caro do receituário ortodoxo não está funcionando como deveria, é legítimo perguntar se a condução da política econômica tem sido, de fato, assertiva.
E aqui vale uma provocação necessária. Nas últimas décadas, experimentamos doses variadas de heterodoxia: controle de preços administrados, estímulo fiscal disfarçado de política anti-inflação, discurso de que o problema seria de oferta e se resolveria sozinho. Nada disso entregou resultado consistente. Mas o modelo de metas, na forma como vem sendo operado, também não está entregando. Fica a pergunta que muitos evitam fazer: não seria o caso de recorrer, com mais rigor e menos concessões, ao ferramental ortodoxo clássico de combate à inflação, âncoras fiscais críveis, comunicação sem ambiguidade e disciplina orçamentária, em vez de tentar equilibrar metas de curto prazo com gastos crescentes?
Esse debate, porém, não pode ser dissociado de um pano de fundo estrutural. O Brasil cresce de forma desorganizada, com um crescimento populacional que não dialoga com a oferta de serviços públicos, e convive com uma disparidade brutal entre regiões e estratos sociais em estágios muito diferentes de desenvolvimento. Nesse cenário, nem o ritmo do crescimento econômico, nem as políticas distributivas em vigor têm sido suficientes para acelerar a melhoria da qualidade de vida da população. Inflação persistente é, nesse contexto, um imposto regressivo adicional, que corrói primeiro o poder de compra de quem já tem menos.
E, para coroar essa tempestade perfeita, vem o descontrole das contas públicas: resultado primário deficitário, resultado nominal deficitário próximo de 9% do PIB em 2026 e uma dívida líquida do setor público que os próprios agentes de mercado projetam subir de patamar já nos próximos anos. É a cereja de um bolo indigesto, que alimenta narrativas populistas de todos os matizes e não resolve nenhum problema real da sociedade brasileira.
Vivemos, neste momento, um período eleitoral especialmente propício para exigir mais do que promessas. Candidatos ao Senado, aos governos estaduais e ao governo federal deveriam ser cobrados por compromissos concretos, com metas, prazos e instrumentos claros de ajuste fiscal e de convergência inflacionária, não apenas por narrativas construídas para encantar o eleitor e garantir o voto. A hora é de debate técnico e de responsabilidade, não de discurso fácil.