Há momentos em que a política parece querer nos convencer de que só existem dois caminhos: gastar sem limite ou cortar sem medida. De um lado, um governo que trata a expansão da despesa como resposta quase automática para cada problema, mesmo quando a receita não acompanha o mesmo ritmo. De outro, uma oposição que acena com uma ruptura tão ampla que, levada ao extremo, poderia atingir políticas sociais construídas ao longo de décadas. Entre esses dois impulsos, o Brasil precisa reaprender algo elementar: governar não é escolher entre irresponsabilidade fiscal e insensibilidade social.
A reflexão de Carlos Alberto Sardenberg no editorial de seu programa na rádio CBN do dia 05/10/2026, ajuda a enxergar esse ponto. Segundo o jornalista, parte expressiva do eleitorado que se deslocou para a oposição não pode ser reduzida a um rótulo ideológico. Há gente séria, cansada, desconfiada e preocupada com o futuro, que não necessariamente abraça todo o repertório do bolsonarismo, mas rejeita a ideia de que o Estado possa gastar indefinidamente e transferir a conta para amanhã. Esse eleitor deseja mudança. O problema é que desejar mudança não significa conceder autorização para desmontar tudo aquilo que funciona.
A conjuntura que o próximo governo deverá encontrar recomenda prudência. As expectativas apontam para uma economia com crescimento mais contido, inflação em alta, juros elevados e uma trajetória fiscal preocupante. A dívida pública permanece como um dos principais pontos de atenção. Ao mesmo tempo, não se trata de uma economia sem fundamentos: o setor externo mantém capacidade de geração de recursos e o país continua atraindo investimentos. O cenário, portanto, não é de terra arrasada, mas tampouco permite voluntarismos.
É nesse ambiente que me ocorre a canção “Enquanto houver sol”, dos Titãs. Há nela uma mensagem de persistência que ultrapassa o contexto musical. “É caminhando que se faz o caminho”. A frase tem sua origem nos poemas do poeta Antonio Machado. O poeta espanhol lembrava que o caminho não está pronto à nossa espera: ele é construído pelos passos que damos. Também na política econômica o futuro não surge de fórmulas mágicas. Ele resulta de escolhas sucessivas, correções de rumo, aprendizado e responsabilidade.
Esperança, nesse sentido, não é ingenuidade. É resistência ao fatalismo. Resiliência não é aceitar qualquer coisa em nome da estabilidade, mas preservar o que funciona enquanto se corrige o que deixou de funcionar. Se o governo atual erra ao supor que toda demanda pública encontra resposta em mais gasto, um eventual novo governo errará igualmente se imaginar que equilíbrio fiscal se constrói eliminando, de forma indiscriminada, políticas sociais. O orçamento precisa caber na receita, mas as pessoas também precisam caber no orçamento.