Na semana passada, iniciei uma série de quatro textos a partir da leitura de Previsivelmente Irracional, de Dan Ariely. A ideia é compartilhar algumas provocações do livro e relacioná-las com situações que encontro quando falamos de inovação. No primeiro texto, escrevi sobre a importância de questionar o óbvio. Nesta segunda reflexão, um ponto me chamou a atenção: temos dificuldade de avaliar as coisas de forma isolada. Quase sempre precisamos de uma referência para comparar. Pense em uma situação comum. Como saber se um produto está caro? Normalmente, comparamos com outro produto, com o preço que pagamos anteriormente ou com alguma referência que temos na cabeça. Fazemos isso o tempo todo. Para Ariely, nossas escolhas são muito mais relativas do que imaginamos. O valor que damos a algo depende, muitas vezes, do que está ao lado.
Enquanto lia esse trecho, pensei no quanto fazemos isso também quando o assunto é inovação. Uma empresa conhece uma nova tecnologia e pergunta quem já está usando. Um empreendedor apresenta uma ideia e logo surge a pergunta: quem já faz algo parecido? Uma cidade conhece uma iniciativa interessante de outro município e começa a pensar em como fazer igual. Não vejo problema em buscar referências. Pelo contrário. Conhecer experiências de outros lugares ajuda a ampliar nosso repertório. O cuidado está em transformar referência em receita.
Vejo isso acontecer com frequência nos ecossistemas de inovação. Queremos conhecer o que deu certo em Florianópolis, Curitiba, Barcelona, Medellín ou em outros lugares reconhecidos por suas iniciativas. São experiências importantes e temos muito a aprender com elas. Mas existe uma pergunta que não pode ficar de fora: isso faz sentido para a nossa realidade? Cada território tem sua história, suas empresas, universidades, lideranças, vocações econômicas e, principalmente, seus próprios problemas. Uma solução que funcionou muito bem em determinado contexto pode simplesmente não funcionar em outro. Inovação não é copiar uma boa prática. É entender por que ela funcionou e descobrir o que podemos aprender com ela.
Nas empresas ocorre o mesmo. Observar o concorrente é importante, mas olhar somente para ele pode nos levar a disputar quem faz melhor aquilo que todos já estão fazendo. Às vezes, a oportunidade está em outro lugar. Em vez de perguntar apenas “o que meu concorrente está fazendo?”, podemos perguntar “qual problema do meu cliente ainda não resolvemos?”. Parece uma mudança pequena, mas muda completamente a conversa. Saímos da comparação e voltamos nossa atenção para o problema.
A leitura de Ariely me deixou justamente com essa provocação. As referências que escolhemos influenciam nossa percepção sobre o que é bom, possível ou desejável. Por isso, precisamos escolher bem com quem nos comparamos. Na inovação, olhar para fora é necessário. Mas compreender a própria realidade é indispensável. Antes de copiar a próxima boa ideia, talvez valha uma pergunta: o que essa experiência pode nos ensinar sobre o nosso problema?