Chegamos ao terceiro texto da série inspirada na leitura de “Previsivelmente Irracional”, de Dan Ariely. Começamos falando sobre algo que considero essencial para quem trabalha com inovação: questionar o óbvio. Depois, refletimos sobre como nossas referências influenciam escolhas e como olhar demais para o que os outros fazem pode nos afastar do problema que realmente precisamos resolver. Agora, avançando na leitura, encontrei uma provocação muito presente nas decisões que tomamos todos os dias: “o poder do grátis”.
Imagine a seguinte situação. Você entra em uma loja e encontra dois chocolates. Um deles é reconhecido pela qualidade e custa alguns centavos. O outro é mais simples, mas está sendo oferecido gratuitamente. Qual você escolheria? Dan Ariely fez uma experiência parecida. Quando os dois chocolates tinham preço, muitas pessoas preferiam pagar um pouco mais pelo produto considerado melhor. Mas, quando o chocolate mais simples passou a ser gratuito, as escolhas mudaram. De repente, o grátis ficou muito mais atraente.
Parece uma decisão pequena. Mas comecei a pensar em quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa quando buscamos inovar. Uma ferramenta aparece com versão gratuita e começamos a usar. Surge uma plataforma nova e cadastramos a equipe. Recebemos acesso gratuito a uma solução e pensamos: “vamos testar, afinal, não custa nada”. Será mesmo que não custa? Talvez esse seja o ponto mais interessante dessa reflexão. Preço zero não significa custo zero.
Uma ferramenta gratuita pode exigir horas para ser configurada. Pode demandar treinamento, adaptação dos processos e atenção das pessoas. Pode ainda não conversar com os sistemas que a empresa já utiliza. Não saiu dinheiro do caixa, mas alguém investiu tempo para aquilo acontecer. E tempo também é recurso. Quando trago essa discussão para a inteligência artificial, ela fica ainda mais atual. Praticamente todos os dias conhecemos uma nova ferramenta capaz de escrever, analisar dados, criar imagens, organizar informações ou automatizar alguma atividade. Muitas oferecem acesso gratuito e são excelentes oportunidades para experimentar.
O problema não está em experimentar. Está em experimentar sem saber por quê. Tenho percebido que muitas conversas sobre inteligência artificial começam pela ferramenta: “qual IA devemos usar?”. Talvez devêssemos inverter a pergunta: “qual problema queremos resolver?”. Essa pequena mudança faz diferença. Quando começamos pelo problema, conseguimos avaliar se determinada tecnologia realmente ajuda. Quando começamos pela ferramenta, corremos o risco de criar uma solução e depois sair procurando um problema para justificar seu uso.
Isso também acontece nos ecossistemas de inovação. Eventos, programas, capacitações e iniciativas gratuitas mobilizam pessoas, empresas e instituições. Mesmo sem cobrança financeira, existe investimento de tempo, conhecimento e energia. Por isso, participar de tudo nem sempre significa aproveitar melhor as oportunidades. A leitura desta terceira parte do livro deixou uma pergunta que pretendo levar comigo para as próximas decisões: se não estou pagando com dinheiro, estou pagando com o quê? Pode ser com tempo, atenção, dados ou energia da equipe. Reconhecer esses custos não significa deixar de experimentar. Significa experimentar melhor. Porque inovar não é usar tudo o que está disponível. É escolher aquilo que realmente ajuda a resolver um problema e gerar valor.