ECONOMIA

min de leitura

Doze cidades campeãs de royalties têm condição de vida abaixo da média

(via Agência Brasil)

| Edição de 19 de março de 2026 | Atualizado em 19 de março de 2026

Fique por dentro do que acontece em Apucarana, Arapongas e região, assine a Tribuna do Norte.

Das 50 cidades brasileiras que mais recebem royalties da produção de petróleo, 12 apresentam indicadores sociais abaixo da média nacional. Isso significa que essas cidades obtiveram um Índice de Condições de Vida (ICV) inferior a 0,485, que é a média das cidades brasileiras. A escala do ICV varia de zero a um, sendo que quanto maior o índice, melhor a condição de vida.

Essa constatação faz parte do estudo Pesquisa Petróleo & Condições de Vida, divulgado pela Agenda Pública, uma organização da sociedade civil que atua no fortalecimento da gestão pública e promoção do desenvolvimento sustentável.

Para elaborar o ranking, os pesquisadores analisaram informações sobre as 50 cidades que mais recebem royalties, que são as compensações financeiras pagas pelas empresas de petróleo pela exploração do mineral. Os dados são referentes ao ano de 2024.

O estudo atribuiu notas às condições desses municípios em oito áreas: saúde, educação, infraestrutura, gestão, desenvolvimento econômico, finanças públicas, proteção social e meio ambiente.

Com o cruzamento dos dados de receitas de royalties e os indicadores socioeconômicos municipais, as cidades de Linhares (ES), Araucária (PR) e Resende (RJ) lideram o ranking de qualidade de vida, mesmo não estando entre os 15 municípios que mais receberam a compensação.

As cidades que recebem esses recursos são definidas por critérios geográficos, considerando a localização dos reservatórios naturais ou estruturas como oleodutos, gasodutos, terminais marítimos e refinarias. Essas localidades sofrem impactos diretos da cadeia do petróleo. Como o petróleo é um recurso natural finito, os royalties são vistos como uma forma de o poder público se preparar para a potencial queda de arrecadação quando a atividade econômica se extinguir.

Campeãs de royalties

O estado do Rio de Janeiro, cujo litoral abriga as bacias petrolíferas de Campos e Santos, concentra o maior número de cidades que recebem a compensação financeira paga pela indústria do petróleo, com 37 municípios contemplados, seguido por São Paulo (6) e Espírito Santo (4).

Entre as 50 cidades campeãs no recebimento dos royalties, apenas três não estão na região Sudeste: Pilar (AL), Araucária (PR) e Coari (AM). Pilar possui reservatórios terrestres de óleo e gás; Araucária abriga a Refinaria Presidente Getulio Vargas (Repar), da Petrobras; e Coari, no coração da Amazônia, é onde está localizado o reservatório de petróleo e gás Urucu, explorado pela estatal.

Confira a lista dos 15 municípios que mais recebem receitas do petróleo:

Imagem ilustrativa da imagem Doze cidades campeãs de royalties têm condição de vida abaixo da média
Maricá, no Rio de Janeiro, foi a cidade com maior arrecadação de royalties do petróleo - Tânia Rêgo/Agência Brasil

1. Maricá (RJ): R$ 2,7 bilhões

2. Saquarema (RJ): R$ 2 bilhões

3. Macaé (RJ): R$ 1,4 bilhão

4. Niterói (RJ): R$ 964,8 milhões

5. Campos dos Goytacazes (RJ): R$ 667,4 milhões

6. Arraial do Cabo (RJ): R$ 546,8 milhões

7. Araruama (RJ): R$ 525,5 milhões

8. Cabo Frio (RJ): R$ 374,5 milhões

9. São Sebastião (SP): R$ 341,1 milhões

10. Rio de Janeiro (RJ): R$ 314,5 milhões

11. São João da Barra (RJ): R$ 295,7 milhões

12. Ilhabela (SP): R$ 279,1 milhões

13. Angra dos Reis (RJ): R$ 245,6 milhões

14. Casimiro de Abreu (RJ): R$ 224,7 milhões

15. Paraty (RJ): R$ 224,4 milhões

Os valores foram apurados com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador da indústria de petróleo, que arrecada e redistribui os recursos.

Indicadores socioeconômicos

Linhares, no litoral norte do Espírito Santo, lidera entre as cidades com melhor qualidade de vida, com um ICV de 0,643. A cidade tem exploração de petróleo e gás em terra e é um ponto estratégico próximo a campos produtores no mar. A média dos municípios brasileiros ficou em 0,485.

Na lista dos 15 maiores recebedores de royalties do petróleo, apenas sete figuram entre os 15 municípios brasileiros com ICV mais alto:

  • Ilhabela (4º melhor)
  • Macaé (7º)
  • Niterói (8º)
  • Maricá (11º)
  • Rio de Janeiro (12º)
  • São Sebastião (14º)
  • Angra dos Reis (15º)

Saquarema, a segunda cidade que mais recebeu dinheiro de royalties, é apenas a 16ª no ranking de qualidade de vida.

Confira a lista dos municípios com maiores ICV:

  • Linhares (ES): 0,643
  • Araucária (PR): 0,638
  • Resende (RJ): 0,625
  • Ilhabela (SP): 0,625
  • Volta Redonda (RJ): 0,620
  • Caraguatatuba (SP): 0,603
  • Macaé (RJ): 0,602
  • Niterói (RJ): 0,596
  • Presidente Kennedy (ES): 0,591
  • Quissamã (RJ): 0,591

O levantamento destaca ainda que 12 cidades, mesmo com o recebimento de royalties, apresentam ICV abaixo da média nacional. São elas:

  • Paraty (RJ): 0,484
  • Mangaratiba (RJ): 0,478
  • São Gonçalo (RJ): 0,475
  • Campos dos Goytacazes (RJ): 0,455
  • Japeri (RJ): 0,453
  • Silva Jardim (RJ): 0,451
  • Guapimirim (RJ): 0,448
  • Itaboraí (RJ): 0,443
  • Duque de Caxias (RJ): 0,430
  • Magé (RJ): 0,417
  • Coari (AM): 0,377
  • São Francisco de Itabapoana (RJ): 0,351

Neste grupo, destaca-se que Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, tem um ICV abaixo da média nacional, mesmo sendo a quinta cidade com maior recebimento de royalties em 2024 (R$ 667,4 milhões).

Qualidade de vida

O estudo da Agenda Pública classifica os municípios por condição de vida:

  • Até 0,499: muito baixa condição de vida
  • 0,500 a 0,599: baixa
  • 0,600 a 0,699: média
  • 0,700 a 0,799: alta
  • Acima de 0,800: muito alta

Nenhum dos campeões de receitas de royalties atinge o patamar de alta condição de vida. Além disso, 16 dos maiores recebedores das compensações financeiras são classificados como de muito baixa condição de vida.

Recursos x desenvolvimento social

Para os pesquisadores, os resultados do levantamento mostram que o volume de dinheiro recebido não é o principal fator que explica trajetórias de desenvolvimento mais positivas, mas sim como as prefeituras planejam, executam e monitoram o uso desses recursos.

O diretor-executivo da Agenda Pública, Sergio Andrade, avalia que municípios que dependem do petróleo tendem a ampliar gastos no curto prazo, mas sem regras claras que os convertam em melhoria sustentável das condições de vida.

“O desafio é institucional: planejar o uso dos royalties como instrumento de desenvolvimento de longo prazo, e não apenas como fonte de financiamento imediato”, indica.

Os pesquisadores acrescentam ao estudo recomendações para o poder público e empresas petrolíferas. Entre as sugestões para as prefeituras, está o investimento massivo em educação, a fim de qualificar a população local para atuar em empresas da cadeia de valor do petróleo. Também há a indicação de que as capacidades estatais reforçadas pelos royalties sejam “direcionadas para resultados concretos em áreas como saúde, educação e proteção social”.

Às empresas do setor, a organização recomenda o apoio a projetos de educação e capacitação profissional, “evitando desigualdades como as observadas em municípios que concentram alta renda média, mas também altas taxas de pobreza”.

Além disso, indicam contribuir para a diversificação econômica local, fomentando cadeias produtivas complementares para ajudar a reduzir a dependência exclusiva dos royalties.

?

Com informações da Agência Brasil