ECONOMIA

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Estudo aponta fatores estruturais para inflação de alimentos no Brasil

(via Agência Brasil)

| Edição de 31 de março de 2026 | Atualizado em 31 de março de 2026

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Um estudo recente da ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, revela que a inflação de alimentos no Brasil é um fenômeno estrutural, impactando mais os produtos frescos do que os ultraprocessados. O levantamento, conduzido pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp, destaca que a inflação alimentar no país não se deve apenas a fatores sazonais ou conjunturais, mas sim a pressões permanentes que exigem mudanças estruturais na economia.

Alta acima da inflação

Nos últimos 20 anos, o custo da alimentação no Brasil aumentou 302,6%, superando a inflação geral do país, que foi de 186,6%. Isso significa que, de junho de 2006 a dezembro de 2025, o aumento dos preços dos alimentos foi 62% superior ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em comparação, nos Estados Unidos, o preço dos alimentos subiu apenas 1,5% acima da inflação geral no mesmo período.

Palmieri Junior observa que, no Brasil, os preços dos alimentos tendem a subir rapidamente durante crises, mas a redução posterior é rara. Os grupos alimentícios que mais sofreram aumentos foram tubérculos, raízes e legumes (359,5%), carnes (483,5%) e frutas (516,2%).

Saudáveis x ultraprocessados

A perda do poder de compra é mais acentuada nos alimentos in natura. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%, e para hortaliças e verduras, 26,6%. Em contrapartida, o poder de compra para refrigerantes aumentou 23,6%, e para embutidos como presunto e mortadela, 69% e 87,2%, respectivamente.

Os alimentos ultraprocessados são mais baratos devido à menor oscilação de preços dos aditivos industriais e ao cultivo intensivo de poucos tipos de alimentos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, que são transformados em diversos produtos por meio de aditivos químicos.

Modelo exportador

O modelo agroexportador do Brasil contribui para o aumento dos preços internos, pois os produtores priorizam o mercado externo, recebendo em dólares. Em 2025, o Brasil exportou 209,4 milhões de toneladas de alimentos, enquanto importou 17,7 milhões. A área dedicada ao cultivo de soja, milho e cana de açúcar aumentou significativamente, enquanto a de alimentos básicos como arroz e feijão diminuiu.

Insumos mais caros

O custo dos insumos agrícolas, como fertilizantes e máquinas, também pressiona os preços. Entre 2006-2008 e 2022-2024, os preços dos fertilizantes aumentaram 2.423%, e os de herbicidas, 1.870%. Essa dependência de insumos controlados por oligopólios internacionais cria um ciclo vicioso que afeta os preços internos.

Concentração

A concentração da cadeia produtiva é outro fator que contribui para a inflação alimentar. Apenas quatro empresas controlam 56% do mercado global de sementes, e quatro dominam 61% do mercado de pesticidas. Na indústria alimentícia, poucas marcas detêm grande parte do mercado de margarina e chocolates no Brasil.

Inflação invisível

A inflação dos alimentos é agravada pela "inflação invisível", onde produtos mantêm o preço, mas perdem qualidade ao substituir ingredientes caros por mais baratos, como menos leite e mais açúcar no sorvete.

Soluções

O estudo sugere caminhos para reverter a inflação alimentar, como a desconcentração produtiva, fortalecimento das economias locais, reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno, e fortalecimento de estruturas como a Conab e Ceasas. Palmieri Junior defende a reforma agrária como uma solução para melhorar a soberania alimentar e beneficiar o capitalismo, ao liberar renda para outros setores produtivos.

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Com informações da Agência Brasil