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Entenda relação entre a causa palestina e a guerra contra o Irã

(via Agência Brasil)

| Edição de 03 de março de 2026 | Atualizado em 03 de março de 2026
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O ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 marcou uma nova etapa no conflito do Oriente Médio, especialmente em relação aos territórios palestinos. Alguns analistas acreditam que os ataques ao Irã são uma consequência indireta da guerra na Faixa de Gaza e da colonização da Cisjordânia.

Os governos de Israel e dos Estados Unidos parecem estar aproveitando as fragilidades econômicas do Irã, exacerbadas por sanções ocidentais e divisões políticas internas, para enfraquecer o apoio de Teerã ao Eixo da Resistência. Este eixo é composto por grupos armados que se opõem às políticas de Israel e dos EUA na região, como o Hezbollah, o Hamas e os Huthis no Iêmen. A queda do governo de Bashar al-Assad na Síria, após anos de guerra financiada por potências estrangeiras, também é vista como parte dessa intensificação contra o Eixo da Resistência, já que a Síria era aliada do Irã.

Bruno Huberman, professor de relações internacionais da PUC-SP, afirmou que as agressões ao Irã são uma consequência do 7 de Outubro, pois Teerã é a principal força de oposição à política de Washington e Tel-Aviv no Oriente Médio. Segundo ele, a solidariedade com a causa palestina está no centro do projeto político iraniano desde a Revolução Iraniana de 1979, o que explica o confronto com o Irã.

“A solidariedade com a causa palestina sempre esteve no centro do projeto político iraniano desde 1979 [Ano da Revolução Iraniana]. Isso é uma das razões pelas quais o Irã tem sido confrontado.”

Huberman destaca que o Irã é crucial para a questão palestina e para os grupos islâmicos de resistência armada que buscam a libertação nacional radical na Palestina. Ele acrescenta que a queda do Irã permitiria que os EUA e Israel reorganizassem o Oriente Médio conforme seus interesses, facilitando a anexação da Cisjordânia por Israel.

“Desde o cessar-fogo em Gaza, Israel tem avançado de forma significativa na colonização e na anexação de território na Cisjordânia. E, durante essa guerra no Irã, isso deve se fortalecer.”

No mês passado, Israel aprovou novas regras para a compra de terras palestinas por israelenses na Cisjordânia, uma medida vista como tentativa de avançar sobre o território palestino. Em 2025, pelo menos 40 mil palestinos foram expulsos de suas residências na região.

Mudança de cenário

Por outro lado, Huberman avalia que a queda de Teerã não inviabiliza a causa palestina, apesar de alterar o cenário. “O Irã se envolveu mais no apoio à luta armada, assim como o Catar, enquanto outros países apoiam projetos humanitários, de desenvolvimento, ou só de forma retórica.”

Os grupos xiitas Hezbollah, no Líbano, e os Huthis, no Iêmen, são exemplos de grupos armados do Eixo da Resistência, apoiados pelo Irã, que se lançaram em ataques contra Israel em apoio à Gaza.

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Pessoas correm no Líbano, após ataques entre Hezbollah e Israel em meio ao conflito entre os EUA e Israel com o Irã. Reuters - Proibido reprodução

Direito internacional

Para outros analistas, não é possível traçar uma relação direta entre o 7 de Outubro e as agressões contra o Irã, embora os dois eventos estejam de alguma forma conectados. A professora Rashmi Singh, da PUC Minas, argumenta que a ação israelense em Gaza e na Cisjordânia serviu para normalizar, pelos países ocidentais, a aplicação seletiva do direito internacional.

Rashmi cita, como exemplos, “o genocídio na Palestina, os bombardeios ilegais de hospitais, escolas, universidades, igrejas, mesquitas e outras infraestruturas civis” por parte de Israel, assim como “atos terroristas [de Israel] em outros países – como os ataques com pagers no Líbano –, que foram saudados pelo Ocidente não como terrorismo, mas como ‘estrategicamente brilhantes por parte de Israel'”.

A professora da PUC de Minas acrescenta que todas essas violações do direito internacional ocorreram com o silêncio ou cumplicidade dos países europeus e norte-americanos.

“Os ataques ilegais ao Irã, há oito meses, também foram elogiados. Portanto, a Palestina não está diretamente relacionada aos ataques ao Irã, mas estabeleceu o padrão do que é permitido nas relações internacionais. Estabeleceu o cenário para o que está acontecendo no Irã”.

Rashmi Singh acrescenta que, apesar do apoio que o Irã fornece aos grupos de resistência palestinos, a causa palestina não depende exclusivamente do Irã, "ou de qualquer outro ator externo". "O apoio externo é um fator, mas não é o único”, destacou.

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Rashmi Singh, professora da PUC Minas, analisa consequências do conflito EUA-Irã. Frame/TV Assembleia MG

Ao mesmo tempo, a professora alerta que Israel tem usado a guerra para “expandir seu roubo territorial ilegal de terras palestinas”.

“Gaza foi completamente isolada novamente – contrariando o acordo de cessar-fogo – e os colonos, israelenses, na Cisjordânia estão ocupados aterrorizando os palestinos, matando e assediando, com o apoio total das Forças de Defesa de Israel.”

Influencia o contexto

Há analistas que atribuem uma influência do 7 de Outubro ao contexto geral do Oriente Médio, sem que o ataque do Hamas possa explicar, sozinho, a decisão de Israel e dos EUA de atacarem o Irã. Essa é a avaliação da professora de relações internacionais do Ibmec SP, Karina Stange Caladrin, que também é assessora do Instituto Brasil-Israel.

“Desde 2023, a guerra em Gaza ‘regionalizou’ a dinâmica de segurança: Israel passou a tratar o chamado eixo de resistência – Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias aliadas – como um tabuleiro integrado, e o Irã como o principal patrocinador, financeira, militar e politicamente, dessa rede.”

Caladrin acrescenta que, nesse contexto, a guerra em Gaza e a escalada dos conflitos na Cisjordânia criaram incentivos para ampliar a pressão contra Teerã. Para ela, a guerra contra o Irã também tira a agenda palestina do noticiário e corta parte do respaldo que grupos palestinos recebem do Irã.

“Paradoxalmente, uma escalada maior pode radicalizar narrativas, aumentar polarização e ampliar a mobilização transnacional em torno da Palestina, mas isso não se traduz automaticamente em ganhos políticos concretos para Gaza e Cisjordânia”, acrescentou.

Por outro lado, Karina Caladrin pondera que, caso o regime do Irã sobreviva, o mais provável é que reafirme seu papel regional. “O que, de novo, não equivale a avanços políticos palestinos; pode significar apenas que a causa continua 'útil' como símbolo em uma competição geopolítica mais ampla.”

A causa palestina

O conflito israel-palestino é frequentemente associado à criação do Estado de Israel em 1948. Naquele ano, ocorreu a Nakba – catástrofe, em árabe – do povo palestino, quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras e cerca de 450 vilas foram destruídas.

Esses eventos deram início à “causa palestina”, que defende o retorno dos refugiados às suas casas e o estabelecimento de um Estado Palestino independente. Em oposição, Israel rejeita qualquer medida que resulte na criação de um Estado Palestino em suas fronteiras, conforme exige o direito internacional e a maioria dos países do mundo.



Com informações da Agência Brasil