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Moradores de Perus, em SP, acusam fraude em audiência pública

(via Agência Brasil)

| Edição de 02 de abril de 2026 | Atualizado em 02 de abril de 2026

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Os moradores do bairro de Perus, em São Paulo, foram surpreendidos ao serem excluídos da primeira audiência consultiva organizada pela prefeitura e pelo governo estadual. O encontro visava discutir os impactos da instalação de um incinerador de lixo na região. Suspeita-se que pessoas de fora foram recrutadas para desmobilizar a comunidade local, que se opõe ao projeto.

O projeto, denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é de responsabilidade da Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), uma empresa de tratamento de resíduos de saúde. A companhia submeteu estudos à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para análise.

Segundo informações da Agência Brasil, ônibus chegaram ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, trazendo passageiros desconhecidos pelos moradores locais. Esses passageiros formaram filas e se inscreveram para falar, aparentemente com o intuito de impedir que os moradores expressassem suas preocupações.

Uma pessoa relatou ter recebido dinheiro para participar da audiência como se fosse residente de Perus. Ela mencionou que, há anos, busca oportunidades em grupos que formam plateias para programas de TV, onde se simula dramas familiares.

Essa pessoa, que preferiu não se identificar, revelou que um homem os orientava sobre como reagir durante a audiência, simulando apoio ou reprovação conforme necessário.

Com o teatro do CEU lotado, cerca de 500 moradores não conseguiram entrar. Dois televisores foram instalados na entrada, mas o espaço não comportou todos, deixando muitos, inclusive crianças, sob a chuva.

Do lado de fora, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) estava presente, equipada com escudos e gás de pimenta, e chegou a impedir a fala de vereadores. A prefeitura negou o uso de equipamentos de menor potencial ofensivo.

Após insistência, três representantes guarani mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram entrar. O distrito do Jaraguá, criado em 1948, tem raízes em Perus, justificando o interesse dos moradores em participar.

Mário Bortoto, engenheiro químico e líder do movimento de resistência, destacou que a consulta pública é um direito garantido por lei e sugeriu a realização de uma audiência organizada pelos moradores. Os guarani mbya também planejam uma audiência própria.

Bortoto criticou o incinerador, considerado obsoleto em outros países, e alertou para os riscos das cinzas tóxicas e do aumento do tráfego de caminhões. Ele questionou a capacidade da prefeitura em fiscalizar o projeto adequadamente.

Ele também destacou que a aprovação do projeto pode agravar problemas de saúde em uma região já carente de serviços adequados, citando o preconceito e a má reputação do local como fatores agravantes.

"Os médicos muitas vezes evitam trabalhar na periferia por questões de segurança e distância. Temos um sério problema de falta de assistência de saúde, além de problemas habitacionais e educacionais, comuns em toda a periferia de São Paulo", resumiu.

Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil, lembrou dos levantes anteriores e da união de diferentes vertentes religiosas para defender o território. Ela destacou a importância da luta e como isso influenciou sua carreira.

"A audiência deveria ser um espaço democrático, mas o que vimos foi manipulação de informações e da própria audiência", lamentou, observando que o horário do evento coincidia com o expediente da maioria dos trabalhadores locais.

Os moradores e ativistas ambientais propõem transformar a área em um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera, valorizando a relação com a natureza e afastando-se de práticas predatórias.

Histórico da região

Os habitantes de Perus enfrentam pressões para aceitar empreendimentos como o incinerador. A região já carrega o estigma da Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, usada durante a ditadura para esconder corpos de perseguidos políticos, e a proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, conhecido por violações de direitos humanos.

No Mapa da Desigualdade de 2024, Perus apresenta uma expectativa de vida média de 62 anos, destacando-se pela cobertura vegetal, mas também pela emissão de poluentes e baixa quantidade de Pontos de Entrega Voluntária (PEV).

Bortoto lembra das pressões para aceitar empreendimentos como o aterro sanitário na Chácara Maria Trindade, no distrito de Anhanguera, e o aterro sanitário Bandeirantes, que operou por 28 anos, recebendo milhões de toneladas de resíduos.

Outro lado

A Cetesb afirmou que as contribuições da audiência serão consideradas no processo de licenciamento. "O projeto da URE em Perus está em análise técnica, seguindo o rito legal de licenciamento ambiental", informou.

A Loga e a prefeitura destacaram que as UREs são instalações modernas, seguras e amplamente utilizadas em áreas residenciais de diversos países. A URE Bandeirantes visa reduzir resíduos em aterros, gerar energia e criar empregos.

As empresas reforçaram a importância da participação popular e negaram qualquer oferta de vantagens a participantes. A audiência foi organizada respeitando a ordem de chegada e a capacidade do local.

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Com informações da Agência Brasil