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Geada negra que mudou perfil do Paraná completa 50 anos

Cindy Santos

| Edição de 17 de julho de 2025 | Atualizado em 17 de julho de 2025

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O cafeicultor Alécio Gorla, de Apucarana, tinha 32 anos quando viu os cafezais de sua família serem castigados pela geada negra, em julho de 1975. O fenômeno, que completa 50 anos hoje, destruiu plantações de café no Paraná, então o maior produtor mundial do fruto, causando uma crise econômica sem precedentes.

A propriedade de Grola fica no Distrito do Pirapó onde sua família cultivava 22 alqueires de café. Ele conta que a geada foi severa e durou quatro dias. Em 16 de julho o clima já estava muito gelado, com termômetros marcando 0 ºC. No dia seguinte, o vento frio e seco “queimou” a vegetação que amanheceu negra em 18 de julho.

“Houve um chuvisqueiro e a terra estava muito úmida. A frente fria entrou nela pra valer no dia 17. Houve a geada negra e nos dias seguintes a formação de gelo que durou até 20 de julho. Teve região mais fria no Paraná que chegou a formar 50 centímetros de neve”, comenta.

Gorla lembra que a paisagem verde dos cafezais mudou de cor. Do verde passou para tons marrons e pretos. “Foi um baque, né. Mas a gente tinha que continuar, pois o mundo não tinha acabado. Fomos nos adequando, tanto que trabalho com cafeicultura até hoje”, afirma.

De acordo com o cafeicultor, as lavouras de café mais novas foram decepadas e os produtores iniciaram o ciclo do zero. Contudo, 1975 foi marcado com a maior produção de café do estado, o que deu um certo alívio financeiro aos produtores. “Por sorte, antes da geada o Paraná havia feito a maior colheita. Naquela época o estado produzia sozinho 25 milhões de sacas de café beneficiado. E com a escassez, o houve uma grande valorização”, afirma.

Nos anos seguintes, o café foi perdendo área de plantio para outras culturas como soja, milho e algodão. “Essa cultura perdeu espaço em mais de 75% das lavouras da região. Só os apaixonados por café ficaram”, afirma Gorla.

DIVISOR DE ÁGUAS

Evilásio Mori, de Cambira, é outro cafeicultor que vivenciou os impactos da geada negra. Ele tinha apenas 13 anos quando viu as lavouras de seu pai serem atingidas. “Recordo que 1976 seria a safra cheia. Significava que iríamos ter uma safra bem generosa. Como a família exercia duas atividades, ficou a avicultura de postura para nos sustentar”, relata.

Segundo ele, a “geada negra” foi um divisor de águas para a economia do Paraná, marcando a transição da monocultura do café para a diversificação. O fenômeno natural também levou ao êxodo rural. “Muitas pessoas deixaram a zona rural para buscar oportunidades em cidades. Os que permaneceram na cafeicultura tiveram que se adaptar às novas condições, implementando técnicas mais modernas, como plantios em espaçamentos menores e curvas de nível”, comenta.

GEADA NEGRA E GEADA BRANCA

O economista Paulo Franzini, que é especialista em café, explica que a geada branca é caracterizada pela formação de gelo visível nas superfícies, geralmente em áreas baixas e úmidas. Isso ocorre quando a umidade no ar se condensa e congela, formando uma camada de gelo branco e cristalino, e pode ser vista facilmente. A geada negra ocorre quando ventos frios e secos danificam as plantas, causando a morte das células e tecidos. A ação do vento causa necrose, levando as folhas e ramos a ficarem pretos. Nesse tipo de geada, não há formação de gelo visível.

“O ano de 1975 ficou marcado como uma geada negra de forma geral, pois foi a mais severa de todas. No entanto, foram os dois tipos. Os produtores falavam que na tarde do dia 17 de julho o vento já estava congelando a seiva. Mas foi na manhã do dia seguinte que o visual foi de lavouras totalmente queimadas. Começou com a geada negra e depois formou gelo”, explica.

Fenômeno mudou agricultura

O economista Paulo Franzini destaca que a geada de 1975 foi um divisor de decisões para a agricultura do Paraná. Antes, o estado era o maior produtor de café do mundo, com cerca de 1,8 milhão de hectares de café plantados. No entanto, após o fenômeno, a área de café plantada diminuiu significativamente, e os produtores começaram a buscar outras opções. A mecanização da agricultura, que já estava em curso nos anos 70, se intensificou, e culturas como soja, algodão e milho começaram a ocupar as áreas que antes eram do café.

Além disso, as leis trabalhistas da época também influenciaram a mudança. Segundo Franzini, os produtores tinham dificuldade em cumprir com as novas regulamentações, e muitos optaram por mudar de atividade.

“A geada de 1975 foi um impacto econômico significativo para o Paraná, que vivia uma economia ligada ao café. Os produtores tiveram que se adaptar a uma nova realidade e mudar de atividade sem ter a estrutura necessária para isso. Essa mudança teve um impacto duradouro na agricultura do Paraná, que se diversificou e se modernizou ao longo dos anos”, destaca.

Um dia antes, nevava em Curitiba

O ano de 1975 foi um dos mais frios do Paraná. Em 16 de julho de 1975 chovia em partes do Rio Grande do Sul ao Paraná, enquanto uma massa de ar extremamente frio e seco atingia o setor central da Argentina.

Durante a madrugada essa massa de ar frio entrou no extremo-sul do País. No dia 17, Curitiba amanheceu com chuvisco. Neve e chuva congelada foram observadas a partir das 8h. Com a visibilidade reduzida e temperaturas próximas a 0°C, entre 13h e 15h a neve se tornou mais intensa, criando o fenômeno meteorológico mais marcante da memória recente dos curitibanos.

Na Capital, a população comemorava a alegria de um momento marcante com a família, montando bonecos de neve e registrando os momentos em belas fotografias. No dia seguinte, 18 de julho de 1975, a mesma massa de ar polar que colaborou para formação da neve, com rajadas de vento intensas e ar muito muito frio, congelou a seiva das plantas no Norte do Paraná.