Na região de Apucarana, o silêncio tem sido o maior aliado do agressor. Com uma média de 16 casos de violência doméstica registrados por dia, a Delegacia da Mulher faz um alerta vital: registrar o Boletim de Ocorrência (BO) e solicitar a Medida Protetiva de Urgência (MPU) vai muito além da burocracia. Para a delegada, Dra. Luana Lopes, é este passo que permite à polícia conhecer quem realmente precisa de socorro.
No último ano, o montante de casos de violência contra mulher superou a marca de 6 mil ocorrências nos 26 municípios atendidos pela 17ª Subdivisão Policial. Apesar do número alarmante, a delegada avalia o cenário sob uma perspectiva de encorajamento. Segundo ela, o aumento nos registros é reflexo de um trabalho ostensivo de prevenção. “As vítimas estão sabendo como acessar os meios. As vítimas estão sabendo como prestar essas denúncias, como procurar os direitos. Eu não vejo isso de forma negativa”, pontua.
A delegada Luana explica que a denúncia transforma uma estatística fria em uma vida a ser protegida. “Faz com que a gente da polícia, das forças de segurança, tenha conhecimento da sua situação. Que a gente conheça você. Porque muitas das vezes acontecem crimes ali gravíssimos e quando a gente vai ver, a gente se pergunta: ‘quem é essa mulher?’. Alguém sabe alguma coisa dessa pessoa? Não, a gente não sabe nada. Por quê? Porque ela nunca esteve aqui”, explica.
De acordo com ela, ao romper o silêncio, a mulher ganha identidade perante o sistema. “Ela passa a ter um rosto, um nome e uma história para nós. Só assim conseguimos dimensionar o risco e agir antes que o pior aconteça”, reforça.
Para ilustrar que a proteção é real e imediata, a delegada citou um caso ocorrido durante seu último plantão. Uma mulher, que já possuía medida protetiva, foi salva graças a uma ronda preventiva da Patrulha Maria da Penha.
“Os policiais estavam só fazendo ronda e passaram na frente da casa dessa vítima. Perguntaram: ‘tá tudo bem, fulana?’. E ela falou: ‘não, ele está aqui atrás’. Ou seja, ela estava numa situação de necessidade e, em virtude da medida, os policiais estavam fazendo uma ronda preventiva. Nesse momento ela estava precisando deles”, relatou a delegada, destacando que a proteção “não é apenas um papel”.
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA É IMPREVISÍVEL, DIZ DELEGADA
A delegada Luana Lopes mencionou o caso da estudante Sayonara, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio em fevereiro, para mostrar como relatos incompletos dificultam a proteção. No final do ano passado, a estudante registrou apenas uma ocorrência de injúria. “Para nós não ficou clara a periculosidade. Em momento nenhum ela relatou pra nós que ela estava sendo ameaçada”, lamenta. O agressor atentou contra a vida da vítima duas vezes no mesmo dia: colidindo contra o carro dela e tentando disparar uma arma de fogo. A delegada enfatiza que qualquer sinal de controle ou agressão moral já configura violência. “A violência doméstica, ela é imprevisível. Ele pode partir ali de um xingamento para uma tentativa de feminicídio. Então, não espere”, alerta.