O Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), traz dados preocupantes sobre a violência contra a mulher no Brasil. Em 2015, segundo o levantamento, 4.621 mulheres foram assassinadas no país, o que corresponde a uma taxa de 4,5 mortes para cada 100 mil mulheres.
Esses dados mostram a importância da ampliação e do aprimoramento da rede de atendimento à mulher, mas também da necessidade de discutir esse problema nacionalmente. Enquanto mulheres estiverem sendo assassinadas, na maioria dos casos dentro do ambiente familiar, por maridos, companheiros e familiares, a violência contra a mulher precisa se manter na pauta da sociedade. Esse não tema não pode ser considerado apenas uma bandeira do femininismo, mas de toda a população. É preciso mudar esse quadro de opressão, desigualdade e violência que aflige as mulheres historicamente.
Em Apucarana, o número de mulheres assassinadas aumentou 120% no ano passado. Foram 11 mortes contra 5 em 2015. Em 58% dos casos, os autores dos crimes são ex-companheiros ou familiares, o que mostra que a violência doméstica é um problema gravíssimo, que chega a situações extremas e que precisa ser combatido.
A vítima mais recente em Apucarana é Ana Paula Domingos, de 32 anos. Ela foi morta a facadas. Ontem, a polícia prendeu o suspeito do crime. É o sogro da vítima, o que mostra que a violência contra as mulheres é ainda mais dramática, porque ocorre dentro do ambiente familiar.
O assassinato de mulheres representa um desafio não apenas dos órgãos de segurança pública, mas de toda a sociedade. O feminício, por exemplo, que é uma qualificadora incluída no crime de homicídio, ainda precisa ser entendido corretamente. É preciso deixar de tratar os casos como simples “crimes passionais”, atos violentos a partir de relações amorosas frustradas. Na verdade, esses femicídios são, na maioria das vezes, crimes praticados por ódio à mulher e ao que ela representa.
É fundamental acabar com essa naturalização da violência. Assim, é preciso avançar nas políticas públicas para o enfrentamento dos crimes contra as mulheres, com proteção aquelas perseguidas e ameaçadas por ex-companheiros e até familiares, mas também mudar o olhar sobre as mulheres. Na prática, a sociedade precisa se transformar. É essencial acabar com essa cultura que estabeleceu a desigualdade de tratamento e de poder entre homens e mulheres. Aí está a gênese do feminicídio e da violência doméstica, familiar e sexual.