A escolha da violência doméstica como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2015 e uma questão da prova citando a célebre feminista Simone de Beauvoir causaram, inexplicavelmente, polêmica no País. Houve reação negativa de alguns setores mais conservadores da sociedade, que não se constrangeram em demonstrar machismo, intolerância e falta de informação sobre a realidade nacional em manifestações recheadas de preconceito, principalmente na internet. Alguns políticos e outros desavisados, inclusive, chegaram a avaliar a prova do Enem como “doutrinação ideológica”.
Ora, esse posicionamento é esdrúxulo num país onde as mulheres continuam sendo vítimas de discriminação e de violência. O tema do Enem, na verdade, representou um grande acerto dos organizadores da prova e pode ser considerado, inclusive, um assunto de fácil abordagem na redação, diante dos inúmeros casos, infelizmente, de mulheres agredidas por companheiros no Brasil e da discussão sobre esse problema social levantada com a Lei Maria da Penha.
A propósito, a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, representou um grande marco no Brasil no combate a esse crime, tornando a punição dos autores mais rigorosa. Quase dez anos depois, no entanto, o problema persiste e o número de casos registrados no país não para de crescer.
Além da violência doméstica, a questão do preconceito contra as mulheres continua presente no País. Pesquisas mostram, por exemplo, que elas ainda recebem salários menores do que os homens mesmo ocupando postos similares, além de outras desigualdades e diferenciações sexistas.
Por isso, a abordagem da violência contra a mulher e a questão do feminismo no Enem deveriam ser enaltecidas por reforçar a discussão sobre o assunto. O alvoroço criado em torno disso mostra que o Brasil não consegue colocar o dedo nas próprias feridas, fechando os olhos para os nossos graves problemas sociais e de desigualdade. Isso ocorre com as mulheres e também com os negros e homossexuais. O País parece voltar ao passado, como se fosse alvo de um tsunami de conservadorismo que está conseguindo arrastar consigo uma multidão de incautos com base em argumentos ultrapassados.