As tentativas de fraudes no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) chamam atenção para a cultura da corrupção que existe no país e envolve, inclusive, jovens que estão em busca de iniciar a sua carreira profissional. Nem mesmo a Operação Lava Jato, que trouxe à tona um imenso esquema de desvios de recursos públicos e corrupção em estatais federais, serviu de lição para esses estudantes que contrataram quadrilhas organizadas para fraudar as provas. É algo que merece uma reflexão. Afinal, certamente, muitos desses jovens bradaram por mudanças no país e agora dão esse péssimo exemplo.
Foram duas operações realizadas pela Polícia Federal (PF) em oito estados para combater fraudes contra o Enem. Onze pessoas foram presas. Os valores envolvidos geram perplexidade. Em Montes Claros (MG), uma organização criminosa é suspeita de usar uma central de telefonia celular e pontos eletrônicos para repassar informações aos candidatos. O grupo cobrava até R$ 180 mil por gabarito.
É algo absurdo. Um jovem que tem condições de pagar R$ 180 mil para garantir acesso a um curso universitário concorrido – na maioria das vezes medicina - não tem o mínimo caráter e moral. O que esperar dele depois de formado? Quem médico será esse candidato que fraudou a prova?
Além das fraudes, há outras suspeitas envolvendo o Enem. Além dos pontos eletrônicos, a Polícia Federal investiga o vazamento do tema da redação. Um candidato entrou para fazer a prova já com o rascunho da redação pronto. O tema da redação deste ano, intolerância religiosa, foi semelhante a um tema que apareceu em rede social do MEC no ano passado. O governo diz que tudo não passou de coincidência.
O Enem parece uma fábrica de escândalos. Entra governo e sai governo, o Ministério da Educação (MEC) não consegue evitar esse festival de denúncias de irregularidades, que colocam em risco este importante sistema de ingresso no ensino superior.
É preciso tornar essa prova mais segura, sem nenhum espaço para suspeitas.
Além disso, é absolutamente lastimável esse comportamento de jovens que tentam burlar o exame, passando para trás milhares e milhares de outros alunos que passaram anos estudando.
Até que ponto chega à corrupção? Até que ponto vale-tudo para alcançar os objetivos? Não estamos aprendendo nada com a Operação Lava jato? De que adianta criticar os políticos e agir dessa forma?
As autoridades precisam agir com rigor para combater esse crime, enquanto o MEC tem a obrigação de tornar ainda mais rígida a organização do Enem. Esse exame democratizou o acesso ao ensino superior, mas não pode continuar sendo inseguro dessa maneira. Esses vazamentos também tiram sua credibilidade. É fundamental achar mecanismos mais eficazes de controle.