O volume de casos registrados pela Delegacia da Mulher em Apucarana envolvendo o abuso sexual de menores de idade é preocupante por dois motivos. O primeiro é mais óbvio: a simples existência de um caso como este, por si só, já causa revolta. Mas o segundo é ainda pior: apesar dos números serem acima de qualquer razoabilidade, eles são apenas a ponta do iceberg. Por isso, fortalecer a rede de proteção infantil é essencial.
De acordo com os dados levantados pela Delegacia da Mulher de Apucarana e publicados em reportagem da edição de ontem da Tribuna, foram 14 casos neste início de 2019, dois a menos do que no ano passado. Apesar da redução, não há nada para se comemorar, visto que a unidade da Polícia Civil especializada neste tipo de crime acredita que 90% dos casos não chegam ao conhecimento das autoridades.
Isto acontece porque a maioria dos casos acontecem onde deveriam ser os refúgios destas crianças: as próprias casas. Muitos dos abusadores são da própria família ou frequentam a residência. Esta proximidade é mais um fator que contribui para que a vítima não busque ajuda imediatamente.
Por conta disso, é muito importante o fortalecimento de políticas que ajudem a identificar as vítimas. Mas não é só isso. É fundamental que haja um preparo para saber acolher esta criança, dar as orientações necessárias e auxiliá-la a superar este trauma.
A comunidade escolar ocupa uma posição de singular importância. Os professores, por estarem diariamente com as crianças, conseguem perceber alterações de comportamento que, muitas vezes, são os primeiros sinais de que algo está errado. Quando bem orientados, eles podem ser a salvação de uma criança em situação de violência, inclusive sexual.
É neste sentido que discutir sexualidade na escola é tão necessário. Não há nenhuma relação com o que os críticos desta medida pregam, que isso estimularia uma sexualização precoce das crianças. Na verdade, é a escola basicamente cumprindo o seu papel de orientar, ensinando quais comportamentos as crianças não devem tolerar e a quem recorrer caso algo indevido aconteça.
Muito além de uma discussão enviesada pela polarização política, debater sexualidade evita que novos casos aconteçam, além de dar o suporte necessário quando algo assim aconteça. A sociedade não pode mais tolerar a existência desses casos, tampouco que as vítimas sofram sem apoio.