Os que militam na política afirmam com toda segurança que não há adversário nem inimigo, mas uma convivência pacífica entre ambos, porque de um momento para o outro o que era inimigo ontem poderá ser amigo hoje.
Quem tem oportunidade de acompanhar nas transmissões de TV, parlamentares tanto na Câmara Federal como no Senado, digladiam-se, ferozmente, a ponto de se imaginar que poderão chegar às vias de fato; impropérios, palavrões e desrespeito um com o outro são normais na discussão dos temas.
A baixaria é inimaginável porque envolve ataques, acusações, hostilidade e destilam ódio, inclusive revelando questões de foro íntimo, embora um chame o outro de Vossa Excelência e, até em alguns momentos, às vias de fato como empurrões, cusparadas e palavrões indignos de serem pronunciados no ambiente em que se situam.
Sim, hoje inimigos, mas amanhã por circunstâncias de mudanças de partido ou da política tornam-se amigos, fato que está acontecendo no atual momento partidário.
Ao se transferir para o mundo da política, entretanto, ela é “fantasiada” de motivos nobres e elevados, para poder se justificar perante a opinião pública. Assim, a inimizade pessoal, quando se exterioriza na política, assume convenientemente a forma de um conflito político. É preciso, pois, saber distinguir com clareza a hostilidade política da inimizade política da inimizade pessoal travestida de argumentos políticos. É muito difícil lidar com uma situação como essa.
As instituições democráticas são as formas mais civilizadas de convívio político, exatamente porque institucionalizam o conflito, ao tempo em que fixam os seus limites. O pluralismo, a liberdade de organização política e de associação, os direitos individuais, os direitos das minorias, a divisão de poderes, as eleições periódicas, são princípios constitucionalmente garantidos, para proteger a liberdade. Suas normas, ao manterem o conflito dentro de limites que respeitem os direitos dos cidadãos, tornam o conflito político previsível, limitado e, por consequência, legítimo. O que são as eleições senão um conflito limitado entre adversários, com regras explícitas, isentas e compartilhadas para definir quem vence?
Ninguém deve cair no engodo de tentar mudar seus inimigos, e, se não conseguir torná-los amigos, tentar pelo menos lograr neutralizá-lo, removendo a inimizade. Se forem verdadeiros inimigos, interpretarão o seu gesto como fraqueza, como revelador do medo que tem deles. Poderão fingir que aceitam a aproximação para conhecer melhor seus pontos fracos, seus segredos, suas carências para atacá-lo, no momento, em que estiver mais vulnerável em novos amigos. Inimigos nunca. Inimigo não se tenta mudar. A melhor política com eles é mantê-los à distância, isolá-los e retirar-lhes o espaço da manobra. Estas cautelas são necessárias porque os inimigos nunca esquecem.
Assim, o tumulto que acontece nas discussões no plenário diz respeito à defesa do ponto de vista de cada parlamentar e nada mais do que isso, sem que depois haja qualquer resquício de vingança ou mal-entendido.