Nós – trabalhadores da educação básica da rede pública estadual – formamos uma das maiores categorias de profissionais do estado. Juntos, podemos realizar ações de grandes impactos em prol da educação pública. Mas, para tanto, é necessário compreendermos que a educação se faz também para além dos muros da escola, pois nosso ambiente de trabalho está inserido em um contexto social mais amplo em que relações e interrelações se constroem e afetam o espaço micro da sala de aula.
Como prova dessas interrelações, não é preciso muito esforço para chegarmos à triste constatação de que a escola pública paranaense agoniza, por exemplo, com a falta de recursos financeiros, de ações eficientes da gestão pedagógica e administrativa estadual, e também com a falta de valorização dos profissionais da educação. Como resultado dessas interrelações, o processo de ensino e aprendizagem sofre as consequências.
Se olharmos para alguns dados do IDEB, apresentados na página do INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, veremos que os últimos resultados mostram que o Paraná, em 2015, obteve 4,3 no Ensino Fundamental e 3,6 no Ensino Médio, quando a meta mínima estipulada para todo o território nacional era de 4,5 para o Fundamental e 4,2 para o Médio. Embora os números de 2015 tenham sido maiores em relação aos anos anteriores, constatamos que se mantêm aquém do mínimo estipulado. Ao passo que, até o ano de 2011, vínhamos atingindo um resultado que, apesar de não ser o ideal, acabava por superar o mínimo determinado. Isso, muito provavelmente, resultava de uma política que valorizava a educação pública. Percebia-se uma organização didática, pedagógica e administrativa muito mais coerente e coesa nas escolas públicas.
Contudo, ano a ano, não só nós, professores, vimos nossos direitos sendo esmigalhados, como também o direito dos alunos. Sim, dos alunos! À medida que o professor deixa de ter acesso a uma boa formação continuada, que as escolas passam a receber menos verbas e o dinheiro para a construção de novos estabelecimentos escolares se perde pelos caminhos tortuosos da politicagem; à medida que a merenda deixa de chegar com a qualidade, diversidade e quantidade que deveria, que se deixa de buscar caminhos para um ensino de qualidade, todos perdemos. Perdemos as condições de trabalho, perdemos a qualidade do ensino, perdemos a esperança.
Contudo, contrariamente a essa perda de esperança e de ação de luta, apoio-me teoricamente nas palavras de Paulino José Orso – doutor em História e Filosofia da Educação pela Unicamp , quando afirma que “O conhecimento revela-se como a capacidade do ser vivo de se sensibilizar em relação ao meio e de reagir a ele garantindo a sobrevivência, ou seja, o conhecimento tem a ver com a vida”. A pergunta que trago então é: “Onde está cada um de nós – que juntos formamos um imenso coletivo – para nos mobilizarmos e lutarmos por essa escola que pode ser um lócus propiciador de transformações? Deixo claro, contudo, que mobilização não nos remete somente a ações de greve. Para além disso, remete a toda ação que possa nos dar voz e vez, que possa dar visibilidade às necessidades das escolas, dos alunos, e também às nossas – os profissionais da educação.
Seria importantíssimo se, para além de assumirmos uma postura ética e responsável dentro do nosso contexto micro de trabalho, também assumíssemos e ocupássemos os espaços sociais a que estamos diretamente ligados de modo a nos fazermos ver e ouvir, de modo a construirmos uma luta por meio da argumentação, da ação via discurso, possibilitando que a comunidade compreenda que a luta é de todos. Afinal, somos todos trabalhadores que se submetem às mesmas imposições do capital. Imposições essas que podem ser melhor compreendidas e, portanto, mais eficazmente combatidas e/ou transformadas via conhecimento.