OPINIÃO

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Receita de impunidade à moda brasileira

​Por Thiago Zardo, poeta e escritor de Apucarana

| Edição de 24 de outubro de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Para esta receita será preciso uma panela profissional da marca STF, uma porção de cinismo, uma boa quantidade de incompetência dos trópicos, uma pitada de corrupção, marasmo popular fresco, uma colher de apatia pública, comodismo à vontade, uma xícara de omissão à lá PGR, passividade enlatada, paciência de Jó, preguiça e indiferença a gosto. E também um sapo. Um bom acompanhamento para esta receita é um chá, de cadeira.

Primeiro coloque o sapo na panela de pressão juntamente com um pouco de agua. Em seguida leve a panela ao fogo brando e deixe cozinhar vagarosamente. Enquanto isso vá jogando dentro da panela todos os ingredientes. Um a um. Conforme a água vai esquentando, o sapo coitado, por ser um animal homeotérmico, nem sente o processo de cozimento em que está sendo submetido. E acaba sendo cozido vivo. Assim também acontece com a maioria das pessoas que se tornam tão indiferentes aos acontecimentos cotidianos que suas reações frente às mazelas diárias são apenas reflexões instantâneas de reprovação do tipo: “é a vida, fazer o quê?”
Mas, um dia a idade chega e a consciência bate à porta. Então os cabelos já estão grisalhos, as rugas tomam o rosto todo o deixando quase irreconhecível e então você se dá conta de que a vida passou e você não passou de um escravo da ganância e do ilusório dinheiro, preso na masmorra dos seus bens. Nem mesmo foi capaz de consertar a calçada esburacada em frente à própria casa, nem de participar da reunião de bairro, nem de comprar uma rifa para ajudar uma instituição de caridade. E por que demorou tanto tempo para fazer essa descoberta? Pelo simples fato de que quando se está cozinhando na panela do cotidiano a pessoa, como o sapo, perde o parâmetro das coisas. E perder o parâmetro das coisas significa perder a noção do discernimento entre o que é certo e o que é errado. E aí coisa fica nivelada por baixo, qualquer migalha satisfaz. Qualquer candidato satisfaz, qualquer julgamento do STF satisfaz... Então o congresso vira a esculhambação que constatamos, a saúde pública se torna um desarrimo só, as administrações públicas viram a palhaçada que conhecemos, a economia afunda e aí ficam valendo aquelas máximas insuportáveis de elogio à ignorância: “tá ruim, mas tá bão”, “se melhorar estraga”, “rouba, mas faz”...
E não ter noção parece ser a segunda maior habilidade dos políticos brasileiros (a primeira é roubar) porque agora eles resolveram esculachar de vez. Ter a coragem de votar o tal fundo partidário e usar dinheiro público pra fazer campanha? O governo reclama que não tem dinheiro para pagar salários, comprar remédios e investir em educação, mas pra fazer campanha tem? É muita cara de pau! Quer ser candidato? Que faça como as igrejas e os times de futebol que arrecadam com seus fiéis! Que arrume dinheiro com os filiados dos partidos! Que economize do salário milionário que ganham! Bando de sem noção! Mas com o meu dinheiro não! Nem um centavo sequer!
Disse certa vez Wilcox: “pecar pelo silêncio quando se deveria protestar, transforma homens em covardes”. 
Vai por mim, tá na hora de ir pra rua e fazer muito barulho! E se não for por mim, vá pelo Todo Poderoso, porque, segundo a profecia, Deus vomitará os mornos!