O ministro do Planejamento, Romero Jucá, anunciou ontem que se licenciará do governo do presidente interino Michel Temer (PMDB), até que o Ministério Público se pronuncie sobre a gravação de uma conversa sua com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. A licença valerá a partir desta terça-feira.
O anúncio ocorre no mesmo dia em que a Folha de S.Paulo divulgou gravações em que Jucá fala em pacto para deter avanço da Operação Lava Jato. Gravados de forma oculta, os diálogos entre ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e Jucá ocorreram semanas antes da votação na Câmara que desencadeou o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). As conversas somam 1h15min e estão em poder da PGR (Procuradoria-Geral da República). No diálogo, Jucá sugeriu que uma "mudança" no governo federal poderia levar a um pacto para "estancar a sangria" representada pela Operação Lava Jato.
No lugar do ministro licenciado entrará Dyogo Henrique de Oliveira, hoje secretário-executivo do Planejamento.
Em uma entrevista conturbada à imprensa, Jucá afirmou que seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, iria protocolar uma ação junto ao Ministério Público, ainda ontem, para que o órgão indique se houve ou não irregularidade ou crime na conversa. Para Jucá, houve "manipulação das informações" publicadas.
"A partir de amanhã (hoje) eu estou de licença do ministério. Reassumo o Senado para fazer o enfrentamento aqui até que o Ministério Público se manifeste quanto às condições da minha fala com Sérgio Machado. Eu sou presidente nacional do PMDB, sou um dos construtores desse novo governo e não quero de forma nenhuma deixar que qualquer manipulação mal intencionada possa comprometer o governo", disse.
Enquanto Jucá falava, um grupo de servidores e deputados gritava "golpista" e "ladrão", o que obrigou Jucá a falar em um tom de voz alto. Ele chamou os manifestantes de "babacas".
ÁUDIO
A decisão de pedir licença do cargo foi tomada após a divulgação de áudio que desmentiu a versão inicial do ministro de que ele se referia à situação econômica.
Após o vazamento, Jucá e Temer se reuniram no Palácio do Jaburu e, segundo a relatos de aliados, avaliaram que a situação havia se tornado insustentável e que a licença seria a melhor forma de evitar o aumento do desgaste.
No encontro, acertaram a permanência de Oliveira no comando da pasta, em um primeiro momento, uma vez que as soluções caseiras estudadas pelo peemedebista, como o deslocamento para o posto de Moreira Franco e Eliseu Padilha, enfrentaram resistências de ambos.
Ministro garante compromisso de combate à corrupção
Moraes diz que PF vai continuar tendo apoio do governo Temer
O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, negou ontem que o governo Michel Temer tenha recuado no empenho de dar prosseguimento à Operação Lava Jato.
Segundo ele, segue “absoluto” o compromisso da gestão interina no combate à corrupção e na “total independência” da Polícia Federal.
Em gravação revelada pela Folha de S.Paulo, o ministro Romero Jucá (Planejamento) sugeriu em março que uma mudança no governo federal resultaria em um pacto para deter a Operação Lava Jato.
“O compromisso do governo Michel Temer e do Ministério da Justiça com o combate à corrupção e a efetividade da Operação Lava Jato é absoluto e todas as condições necessárias serão garantidas à Polícia Federal, para que permaneça com total independência no prosseguimento das investigações”, disse Moraes à reportagem.
Com a ressaca da divulgação de áudio em que Jucá fala em pacto para deter o avanço da Operação Lava Jato, o governo federal começou a avaliar desde a noite de domingo os impactos de uma eventual saída do cargo do ministro do Planejamento.
A avaliação de governistas e aliados é que o episódio passa uma “péssima imagem de partida” da gestão interina e afeta discurso do presidente em exercício de que deixará a Operação Lava Jato transcorrer normalmente.
Na tentativa de solucionar a primeira crise do novo governo, o presidente interino se reuniu na manhã de ontem com os ministros Jucá e Eliseu Padilha (Casa Civil) e com o assessor especial Moreira Franco. (FOLHAPRESS)