Eduardo Cunha (PMDB-RJ) renunciou ontem à presidência da Câmara dos Deputados. Ele anunciou a decisão em uma coletiva de imprensa, durante a qual chorou. Agora, a Casa tem cinco sessões para realizar novas eleições para o cargo.
“É público e notório que a Casa está acéfala”, afirmou, acrescentando que só sua renúncia poderia pôr fim ao impasse. “Estou pagando um alto preço por ter dado início ao impeachment.”
O peemedebista disse que vai continuar defendendo sua inocência e acusou a Procuradoria-Geral da República de agir com seletividade abrindo inquéritos e apresentando denúncias com o intuito de desgastá-lo como presidente da Câmara.
A decisão de enfim deixar o cargo em definitivo ocorreu em reunião na noite de quarta-feira, após a divulgação do voto de Ronaldo Fonseca (Pros-DF) na Comissão de Constituição e Justiça, que acatou apenas um dos 16 questionamentos de Cunha à tramitação de seu processo no Conselho de Ética, que recomendou a cassação de seu mandato.
Com a renúncia, Cunha pretende ter um aliado comandando a Câmara durante a sessão em que será votado o seu processo de cassação, já que Waldir Maranhão (PP-MA) rompeu com ele havia algum tempo.
O presidente da Câmara pode influir decisivamente na realização e na condução da sessão em que a cassação será analisada. Para que Cunha perca o mandato, é preciso o voto de pelo menos 257 dos 513 deputados. Ou seja, ausências e abstenções durante a sessão contam a seu favor.
A renúncia foi motivada, entre outras coisas, pela intenção dele e de aliados para que novas eleições ao comando da Casa sejam convocadas antes do recesso que começa no final da semana que vem.
Com a renúncia de Eduardo Cunha, que já era esperada pelo presidente interino, Michel Temer apelou por um consenso da base aliada na escolha de um nome para a sucessão da Câmara dos Deputados.
Em reuniões ontem, o peemedebista demonstrou preocupação com a possibilidade de que um racha na base aliada breque a votação de medidas de interesse do governo federal, como a lei dos fundos de pensão e o teto dos gastos públicos.
“A orientação do presidente interino é deixar a própria base aliada se entender”, disse o líder do governo, André Moura (PSC-SE), que se reuniu com Temer.
O Palácio do Planalto tem preferência por um nome da bancada peemedebista, como Osmar Serraglio (PMDB-PR) ou Baleia Rossi (PMDB-SP), mas, em nome de um consenso, está disposto a apoiar um nome do “centrão”, como Rogério Rosso (PSD-DF) ou Beto Mansur (PRB-SP).
Uma das ideias propostas pela base aliada, e que tem o respaldo do governo interino, é que eles revezem a presidência da Câmara dos Deputados nos próximos anos.
Para evitar uma reação de Cunha contra o governo federal, a ordem do presidente interino é que assessores e ministros evitem comentar publicamente sobre a renúncia do peemedebista.
A decisão de Cunha trouxe alívio a Temer devido à saída de Waldir Maranhão (PP-MA) do comando da Câmara, mas também preocupação com a possibilidade de retaliação do peemedebista fluminense, acuado com a perda de poder.