O marqueteiro João Santana declarou, em seu depoimento prestado em acordo de delação premiada, que os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) sabiam do uso de recursos de caixa 2 da empreiteira Odebrecht para pagamento de dívidas eleitorais das campanhas presidenciais do PT.
A reportagem teve acesso aos documentos que integram a delação de Santana e de sua mulher, Mônica Moura, cujo sigilo foi levantado por ordem do ministro do STF Edson Fachin, relator da Lava Jato.
“Lula e Dilma sabiam que as dívidas que possuíam com João Santana seriam saldadas com recursos de caixa dois da Odebrecht”, diz o resumo de uma gravação em vídeo do depoimento de Santana.
A transcrição literal das declarações do casal Santana, gravadas em vídeo, ainda não foi anexada aos autos.
Nos chamados “anexos”, que são relatos dos delatores sobre o que pretendem dizer ao Judiciário, João Santana disse que começou a trabalhar com Lula em 2005 e que os detalhes práticos da contratação foram entabulados com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
“Palocci em muitas vezes interviu (interveio) para que os pagamentos fossem realizados, contudo sempre exigia que o casal aceitasse receber por fora, o que hoje eles suspeitam que eram valores de propina.”
Segundo Santana, embora Palocci tivesse um papel preponderante nos acertos, “tudo sempre dependia da ‘palavra final do chefe’”, em referência ao então presidente Lula.
“Apesar de nunca ter participado de discussões finais de preços ou contratos - tarefa de Monica Moura -, João Santana participou dos encaminhamentos iniciais e decisivos com Antonio Palocci. Nestes encontros ficou claro que Lula sabia de todos os detalhes, de todos os pagamentos por fora recebidos pela Pólis (empresa de Santana), porque Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, sempre alegava que as decisões definitivas dependiam da ‘palavra final do chefe’”, diz o texto encaminhado por Santana para o acordo de delação.
Em seu acordo da delação, Mônica Moura também afirmou que Lula sabia e autorizou pagamentos feitos por fora ao marqueteiro na campanha de 2006.
Mônica contou que Palocci relatou a ela diversas vezes que “tinha que falar com Lula, porque o valor era alto, e ele não tinha como autorizar sozinho”.
Ela disse ainda que na última reunião com Palocci para acertar o valor da campanha de 2006 o ex-ministro disse que Lula autorizou o pagamento do valor total da campanha.
Segundo Mônica, o pleito custou cerca de R$ 24 milhões para dois turnos, sendo que R$ 13,7 milhões foram repassados de maneira oficial.
Ela afirmou ainda que o pagamento dos cerca de R$ 10 milhões restantes, feitos por fora, aconteceu da seguinte maneira: metade pago em contas no exterior pela Odebrecht e metade em espécie por Antonio Palocci. O objetivo era dificultar o rastreamento do dinheiro.
Casal vai perder R$ 80 milhões
Ontem, o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo das delações premiadas do casal de publicitários João Santana e Mônica Moura, bem como de André Santana, auxiliar de ambos.
O casal de marqueteiros do PT João Santana e Mônica Moura perderá um total estimado em R$ 80 milhões como parte do acordo de delação premiada fechado com o Ministério Público Federal.
A conta é distribuída da seguinte forma: R$ 3 milhões em multa de João Santana, R$ 3 milhões em multa de Mônica Moura e mais a perda de todo o saldo bancário e eventuais investimentos feitos pela offshore controlada pelo casal, a Shell Bill Finance, no Banco Heritage, na Suíça. Segundo o Ministério Público, a conta detém cerca de US$ 21,6 milhões, ou cerca de R$ 68 milhões ao câmbio desta quinta-feira.
Um terceiro delator, o funcionário da Polis Propaganda André Luis Reis Santana, pagará mais R$ 50 mil em multa. (FOLHAPRESS)