POLÍTICA

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Secretário de Segurança Pública defende formação continuada de policiais no Paraná

Da Redação

| Edição de 17 de julho de 2016 | Atualizado em 02 de dezembro de 2016

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A rotina de um secretário de Segurança Pública passa pelo enfrentamento de dias de tensão, discussões acaloradas e, principalmente, gestão e trânsito entre as diversas instituições vinculadas, além de um componente garantido: não se sabe qual será a surpresa que o dia reserva nem qual a hora em que o trabalho vai terminar.

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Pouco mais de um ano após assumir o cargo de secretário da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná, o delegado federal Wagner Mesquita avalia as instituições policiais, o que já foi possível aprimorar e quais os árduos desafios que tem pela frente, junto com sua equipe. Confira nesta entrevista:

Tribuna do Norte - Secretário, como foi a transição de uma função operacional – de delegado especializado na área de inteligência policial, tendo conduzido pela PF operações de grande repercussão, como “Ressaca”, “Catimbó” e “Zapata” – para assumir a gestão de uma das secretarias de Estado de maior destaque e alvo de polêmicas contínuas?

WAGNER MESQUITA - Na minha carreira na Polícia Federal, sempre trabalhei com operações, mas durante um período em 2010 assumi a Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, responsável pela coordenação das ações operacionais no Estado todo, de todas as matérias: tráfico, roubo a banco, contrabando. Fiquei dois anos nessa função da PF e foi uma experiência muito positiva. Naquele momento eu conhecia todas as delegacias, escritórios operacionais e profissionais. A PF tem ferramentas de gestão nesse sentido que facilitam ao gestor enxergar quem está trabalhando mais ou menos, quem tem mais meios e menos meios, se tem uma operação que vai conflitar com outra, se tem gente trabalhando duplicado - porque unidades diferentes investigando o mesmo alvo, além de dispendioso, é até arriscado. É uma função na qual é preciso ter a visão global de tudo e tem que acompanhar todos os aspectos das operações: distribuição de recursos, gestão de pessoal e de gastos, avaliação de resultados.

TN - Anos depois, sua primeira função no Poder Executivo estadual foi na direção do Departamento de Inteligência. Como foi essa transição para trabalhar com policiais civis e militares?

WAGNER MESQUITA – A Polícia Civil tem toda uma expertise de investigação e vai bem no pós-crime, onde tem estrutura adequada. E a Polícia Militar tem uma expertise total no policiamento ostensivo preventivo, uma academia própria na qual forma seu pessoal, tem uma doutrina de trabalho. Só que entre uma coisa e outra o Estado ainda é carente, como na coordenação de operações. No momento em que eu assumi o Diep, estávamos tendo problemas com crimes graves contra o sistema bancário na capital. Quando fui procurar ferramentas de gestão, quem estava trabalhando em qual alvo, quantas quadrilhas, quem comparava os dados de uma explosão de caixas eletrônicos com outros dados… Ninguém fazia esse trabalho. Havia entre o pós-crime e o pré-crime um vazio total.

TN - Não havia gestão da informação?

WAGNER MESQUITA - Exatamente, gestão que seria responsável por tratar a informação, distribuí-la, melhorar a qualidade de trabalho das investigações e fazer uma ponte oficial entre a PM e a Civil. Essa ponte existe pontualmente, entre os policiais que se conhecem e se confiam, mas não existe uma ponte oficial. Hoje nós ainda não conseguimos, mas o Paraná é um dos poucos estados do País que não tem uma lei que regulamenta a atividade de inteligência e a gestão da informação. Estamos trabalhando nesse sentido, com um projeto de lei que cria e regulamenta o subsistema de inteligência de segurança pública no Estado do Paraná.

TN - Em 2015, o Paraná atingiu a menor taxa de homicídios dos últimos nove anos, após atuar fortemente para reduzir esse índice. Agora, um dos focos está no combate aos crimes patrimoniais. Como planejar as ações, lidar com essa adaptação rápida do crime para minimizar as consequências para a sociedade?

WAGNER MESQUITA - No combate ao crime organizado, estamos um passo atrás em tecnologia. O criminoso sempre tem uma tecnologia diferente, encontra uma nova forma de ocultar sua atividade, seu patrimônio ou de fazer um pagamento irregular. E também temos, hoje, um contexto social na questão dos crimes patrimoniais, resultado da recessão, do desemprego, de políticas inclusive de execução carcerária. Isso reflete, então não é só a tecnologia para mirar no crime organizado, é o contexto social mesmo. Tudo pode mudar, dependendo de um evento esportivo de grandes proporções, de uma atividade da Receita Federal contra o contrabando ou de tantos outros fatores.

TN - Tem como melhorar?

WAGNER MESQUITA - Acho que a natureza do trabalho é adaptar-se, como a medicina, que atualmente enfrenta um surto de doenças contagiosas, como chikungunya, zica vírus, coisa que cinco anos atrás ninguém falava. A segurança é um ser vivo, não adianta. Nós não vamos chegar naquele ponto ótimo, porque a natureza humana é de infringir as regras. A partir do momento que a gente vê alguma coisa posta e colocada, ela vai ser burlada, não tem jeito, isso é da natureza humana.

TN - Como está o Paraná no cenário nacional com relação à segurança?

WAGNER MESQUITA - Nós estamos bem. Nosso método de avaliação das estatísticas acabou de ser reconhecido internacionalmente, nossos índices são os índices comuns de qualquer cidade com a quantidade de habitantes que nós temos, mas a atuação policial aqui é diferenciada. Estamos com índice de homicídio de 21 por 100 mil habitantes, muito bom em relação a outros lugares. O homicídio acaba sendo o maior parâmetro na área da segurança, por ser o bem maior que a gente tem, que é a proteção à vida. Entretanto, a atuação do crime organizado tem uma posição estratégica no Paraná. Por aqui passam drogas, armas, o que influencia diretamente na possibilidade de corrupção, e todas essas práticas são diariamente combatidas pela polícia. Não temos um problema endêmico de corrupção policial. Temos problemas pontuais como qualquer instituição tem. Nosso sistema ainda é um sistema sadio e correto.

TN - Até o final do ano, teremos mais de 8 mil novos soldados da PM formados. Qual o cenário que vão enfrentar e por que os paranaenses precisam tanto deles? Qual o papel que o policial tem para o Estado, para o cidadão?

WAGNER MESQUITA - A formação do policial é uma formação diferenciada. A experiência vale muito, a experiência do mais antigo, a doutrina, porque o policial tem que tomar decisões em milésimos de segundos e são decisões pelas quais ele vai responder para o resto da vida. É uma linha muito tênue entre a omissão e o abuso. Se ele deixar de fazer o que tem que fazer, ele estará sendo omisso e se ele fizer um pouco mais do que ele deve fazer, ele estará abusando da autoridade. Então o que vai fazer ele ficar no meio da linha da maneira correta é a formação dele, é a experiência. Por isso que temos que dar muita atenção para a formação de maneira continuada, não só a inicial. Hoje a nossa vida tomou uma velocidade maior, as informações são mais rápidas e isso também vai refletir no dia a dia. Cada vez mais ele também vai ter que tomar decisões rápidas, fazer ou não fazer, entrar em uma casa, fazer um disparo, dar uma voz de prisão ou não dar. Isso tudo vai ser julgado também de maneira muito rápida, tanto no Judiciário quanto na mídia e entre a população, que faz um juízo muito rápido.

TN - A longo prazo, o que as corporações precisam evoluir?

WAGNER MESQUITA - Em relação ao Depen, eu destacaria que para mim foi o campo mais fértil de desenvolvimento. Eu vi uma instituição com uma importância enorme dentro do contexto da segurança pública, mas sem regulamentação, sem política de valorização dos seus funcionários, com projetos que estavam abandonados no meio do caminho, fadados a serem perdidos. Então nós começamos um trabalho de dar uma personalidade profissional ao agente penitenciário, reconhecê-lo como ente de segurança pública.

TN - E a Polícia Científica?

WAGNER MESQUITA - Hoje a Polícia Científica funciona com seu quadro reduzido. Estamos melhorando as estruturas e temos feito convênio com prefeituras para melhorar a infraestrutura de atendimento, mas ainda precisa de mais pessoal e qualificação dos funcionários. Sabemos do custo que é para o Estado contratar pessoas, mas no caso da segurança pública, isso tem um reflexo direto em qualquer investigação e no serviço à sociedade. A sociedade procura a Polícia Científica quando mais precisa, quando está lesionada, quando faleceu um ente querido, quando precisa de um documento ou um exame.

TN - Qual seria uma marca desse seu primeiro ano à frente da Sesp?

WAGNER MESQUITA - Inteligência e integração. Mesmo sem regulamentação, criamos um canal para gestão de informação e para tentar aproximar Polícia Civil e Polícia Militar, quebrar eventuais barreiras de qualquer natureza e fazer com que o trabalho se complemente. Trazê-los para o mesmo ambiente e para o mesmo desafio, compartilhando as missões que são diferentes, mas também são complementares.