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A eleição passou. E a vida?

Da Redação

| Edição de 27 de outubro de 2026 | Atualizado em 27 de outubro de 2026

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Após à eleição, cheguei cedo ao trabalho. Mal havia me acomodado quando um colega perguntou se eu estava feliz. Respondi que sim. Devolvi a pergunta e recebi um “não” tão enfático que imaginei algum problema pessoal. Perguntei se havia acontecido alguma coisa e se eu poderia ajudar. Ele esclareceu: estava inconformado com o resultado das urnas.

Eu falava da minha disposição para começar o dia enquanto ele, da eleição. Resolvi perguntar: se o resultado tivesse sido outro, você estaria dispensado do trabalho? Teria recebido um aumento ou uma promoção? Suas contas desapareceriam? A vitória de um candidato, ou a derrota de outro, mudaria sua saúde nesta manhã? Ele ficou em silêncio. Não porque a política fosse irrelevante, mas porque a vida cotidiana permanecia diante de nós, com suas obrigações e possibilidades.

Em um grupo de mensagens, alguém anunciava a catástrofe: “Dormimos com o dólar a R$ 4,99 e acordamos com ele a R$ 6”. A frase dizia mais sobre o estado de espírito do que sobre uma cotação confirmada. O câmbio subiu, a bolsa caiu e os investidores reagiram à reeleição de Lula. Não foi uma oscilação banal. Mas o preço de um ativo, mesmo em um pregão turbulento, não é sentença definitiva sobre os próximos quatro anos. Mercados antecipam cenários. Não conseguem assegurar o futuro.

Seria igualmente ingênuo afirmar que nada mudará. Governos escolhem prioridades, distribuem recursos, estabelecem regras e influenciam expectativas. Quando a confiança nas contas públicas diminui, juros e câmbio podem transmitir essa preocupação à economia real. O erro está em confundir a reação imediata dos mercados com um diagnóstico completo do futuro, ou a preferência eleitoral com uma garantia de prosperidade.

O quarto mandato de Lula começará em circunstâncias diferentes daquelas de 2023. O desemprego está em patamar baixo, mas isso não significa ausência de precariedade ou dificuldades de contratação. As famílias convivem com endividamento elevado, o poder de compra segue sob pressão para muitos e os conflitos internacionais tornam incertos os custos da energia e de outras mercadorias. Repetir políticas sem reexaminar seus efeitos seria tão imprudente quanto abandoná-las apenas por oposição ideológica.

Há, ainda, uma diferença legítima de visão sobre o papel do Estado. O que um liberal entende como condição necessária para o investimento pode parecer socialmente injusto a um progressista. Nenhuma dessas tradições está dispensada de prestar contas dos resultados. Boa intenção não substitui execução competente e responsabilidade fiscal não dispensa sensibilidade social. Um governo pode errar sem desejar o fracasso, e uma política bem anunciada pode produzir efeitos contrários aos pretendidos.

Temos que lembrar que desenvolvimento tem relação com as possibilidades concretas de viver bem. Talvez devêssemos cobrar dos governantes menos fidelidade às nossas paixões eleitorais e mais capacidade de melhorar essas possibilidades. Emprego digno, serviços públicos efetivos, contas sustentáveis e respeito às diferenças não pertencem a um partido.

Meu colega não precisava comemorar o resultado. Precisava apenas reconhecer que discordar das urnas não deveria significar entregar a elas a própria felicidade. Ao novo velho governo cabe reconhecer que venceu uma disputa, não que recebeu um cheque em branco. E governar também para quem não o escolheu. A nós cabe algo mais difícil do que vencer uma discussão: conviver, fiscalizar e preservar os vínculos que uma eleição não deveria romper. Afinal, que vitória política compensa uma sociedade incapaz de conversar?