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As cicatrizes que toda criança deveria ter

Da Redação

| Edição de 20 de julho de 2023 | Atualizado em 20 de julho de 2023

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Que a pediatra dos meus filhos não me interprete mal, muito menos o Conselho Tutelar, afinal, o título, como sempre, é apenas uma hipérbole acanhada. Minha filha Anna Beatriz de oito anos é uma menina extremamente engraçada – puxou isso da mãe – e arteira nos modelos que antigamente se apresentavam. Porém, suas vivências são muito menores dos que as minhas – graças a Deus. 

Diferente da minha menina, eu cresci brincando na rua. Sabia o nome de todos os vizinhos e, comi muitas vezes em suas casas. Jogava bola, bets, esconde-esconde, mãe da rua e muito mais. Perdia horas e horas nas calçadas conversando com os amigos, filosofando sobre a vida, mesmo sem saber o que era filosofia e, até mesmo, a própria vida. 

Lembro de um dia que fui atropelado por um carro parado. Sim, é possível e tenho cicatrizes para provar. Em uma bicicleta sem freio e com alta velocidade, bati de frente com um carro parado, terminando travado debaixo dele, preso entre a bicicleta e o “peito de aço”. Noutra vez, correndo por nenhum motivo, tropecei e dei com o queixo no chão, ralando a clavícula pela magreza que me caracterizava. Entretanto, nenhuma delas se compara com a vez que quebrei meu dente com o martelo ou da vez que fiquei preso na lança do portão pela barriga, sendo retirado pelos bombeiros. Aos oito anos, botei fogo na minha casa – só na sala. 

Eu sei, caro leitor e leitora, que devem estar pensando: “mas que criança atrevida?”. Apanhei algumas vezes por minhas ações, mas sempre tive consciência de que merecia. Ainda que ficasse chateado, por não ter controle de minha impulsividade – que hoje sei que o TDAH piorava -, me sentia acolhido mesmo estando errado. Com quatro irmãs mais velhas, confesso que era mimado e protegido. Aprendi que o amor permite o erro, ainda que com o esforço para que eles não ocorram. 

Sendo um filho adotivo, coisa que causa espanto falar com naturalidade, nunca tive problemas com tal situação. Soube desde muito pequeno que, como minha mãe dizia, eu era um “filho que nascera do coração”. Falo com tranquilidade sobre o tema, pois ainda que não tivéssemos muita coisa, nada nos faltava. Entretanto, ao longo da vida, pude conhecer crianças que não tiveram a mesma sorte. Um dos meus melhores amigos – até hoje – não tinha o nome do genitor nos documentos, enquanto outro foi abandonado pelo pai no início da adolescência, tendo que cuidar sozinho de sua mãe com esquizofrenia. Os dois, entre os demais, eram os que estavam “melhor”. 

Agradeço a Deus pela oportunidade que me deu de ter não apenas uma família, mas uma verdadeira família, que mesmo diante de tantos erros, sempre esteve ali para me ajudar a levantar. Não se trata de não cair, mas tem quem possa te levantar quando acontecer. Minha filha aos dois anos quebrou a perna na escada da casa vó, meu filho com pouco menos de dois anos cortou o braço no vidro da janela da sala e espero que a pequenininha espere um pouco para testar meu coração. Hoje sou eu que que brigo e levanto meus filhos, o que para mim é um privilégio. 

Cicatrizes existem quando ferimentos se curam, sejam físicos ou emocionais. Que bom seria que toda criança pudesse tê-las, pois feridas abertas doem, enquanto cicatrizes só contam uma história do que passou.