Figurando constantemente na lista de livros mais vendidos no Brasil, o psiquiatra e pesquisador Augusto Cury esteve na última sexta-feira (29) em Apucarana para uma palestra no Colégio Nossa Senhora da Glória. Falando para uma plateia de aproximadamente 1,2 mil professores e educadores, Cury abordou as principais técnicas e teorias desenvolvidas por ele, que têm na educação um dos seus principais pilares. Ele concedeu uma entrevista à Tribuna e contou um pouco sobre as temáticas abordadas em seus livros e palestras.
Augusto Jorge Cury, nascido em 2 de outubro de 1958, é médico, psiquiatra, psicoterapeuta e escritor brasileiro. Desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal, que estuda sobre o funcionamento da mente, o processo de construção do pensamento e formação de pensadores. Seus livros já venderam 20 milhões de exemplares somente no Brasil. Atualmente, é publicado em cerca de 60 países. É doutor honoris causa pelo Centro Universitário Filadélfia (Unifil), em Londrina.
TRIBUNA - A ansiedade é um tema recorrente em seus livros, sendo apontada como um dos grandes males da atualidade. Como está a situação atualmente? Algo mudou? Como esse quadro vem evoluindo?
AUGUSTO CURY - A situação é gravíssima. Nós, ao longo dos anos, temos mexido na ‘caixa preta’ do funcionamento da mente, alterando o ritmo em que construímos os pensamentos. Isso por conta dos excessos que a sociedade tem cometido. Antigamente, nós dobrávamos o número de informações a cada 200 anos. Hoje, dobra-se a cada um ano. O uso de smartphones e demais tecnologias também é prejudicial. Não apenas o uso de drogas e álcool vicia, mas também os aparelhos tecnológicos. Se você tira o smartphone de uma criança, ela apresenta sinais depressivos, se torna ansiosa. A tecnologia pode se tornar contraproducente, gera irritação, além de problemas e dificuldades no sono.
TRIBUNA - Mas é inegável que esses aparelhos também trouxeram avanços na qualidade de vida...
CURY. - Sem dúvida. O celular é uma ferramenta muito importante. Democratizou o acesso à internet, facilitou a comunicação. Não há dúvida quanto a isso. O problema é que tudo que você utiliza em excesso pode trazer problemas. Até a água em excesso pode levar a graves consequências biológicas. E o excesso de smartphone é um sério problema. Por conta da luminosidade dessas telas, muitas pessoas dormem e acordam no meio da noite ou acordam cansados de manhã, dormindo um sono de má qualidade. Também o excesso de trabalho e o excesso de preocupação são graves problemas, além do excesso de valorização do consumo.
TRIBUNA - Quais são as principais consequências desses hábitos?
CURY - Isso tudo estimula a hiperconstrução de pensamentos, a agitação mental, enfim, algo que eu chamo de Síndrome do Pensamento Acelerado. Pensar é bom, raciocinar é ótimo, mas pensar demais é uma bomba na saúde emocional de pessoas de todas as idades. Eu tive a oportunidade de descobrir essa síndrome e constatar que grande parte da população mundial sofre dela.
TRIBUNA - Quais são os principais sintomas dessa síndrome?
CURY - Alguns dos sintomas são acordar cansado, dores de cabeça, dores musculares, sofrimento por antecipação, baixo limiar para frustrações, dificuldade em conviver com pessoas lentas, déficit de concentração, entre outros. Se você fizer uma enquete sobre esses sintomas, verá que 80% a 90% da população apresenta esse quadro. A ansiedade é o grande mal desse século.
TRIBUNA - Esses hábitos colocados pelo senhor parecem bastante entranhados na sociedade atual. Esse quadro pode ser revertido?
CURY - Esse é o grande desafio. É preciso que haja, principalmente, uma reforma na educação. Hoje, a educação está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Isso é mundial. E não estou falando de português e matemática, onde também estamos atrasados. Estou falando da educação sócio-emocional. Se uma pessoa fosse transportada de 500 anos no passado para a atualidade, ela ficaria impactada e atônita com os transportes, os computadores e demais tecnologias. Mas se ela entrar em uma escola, vai pensar que nada mudou. Por isso foi desenvolvido o programa Escola para a Inteligência, um dos raros programas mundiais que trata da educação sócio-emocional dentro da grade curricular. Esse programa ensina o aluno a se colocar no lugar do outro, a administrar perdas e danos, a filtrar estímulos estressantes, a gerenciar a ansiedade e emoções, utilizar o caos como ferramenta criativa, pensar como ser humano, entre outras coisas.
TRIBUNA - Pelo que o senhor tem observado ao longo dos cerca de 30 anos de trabalho, quais são as principais dificuldades das pessoas hoje na sociedade? O que as pessoas podem fazer para melhorar essa situação?
CURY - O controle das emoções é hoje um problema gravíssimo. O veículo mais importante do ser humano não está sendo dirigido! Aprendemos a dirigir empresas, mas não aprendemos a dirigir as nossas próprias emoções. As dicas que eu dou são as seguintes: a primeira é doar-se sem esperar nada em troca. Se a pessoa espera contrapartidas, vai viver uma vida frustrante. Segundo: é preciso entender que uma pessoa que fere é uma pessoa que já foi ferida. Ninguém nos machuca se não foi antes machucado. Em terceiro lugar, não devemos ser um ‘agiota da emoção’, como pais que se doam aos filhos e cobram demais a fatura depois, ou casais que se apressam para apontar os erros dos outros. Também devemos entender que ninguém muda ninguém. Nós temos o poder de piorar as pessoas, e não de melhorá-las.