A influência da tecnologia na educação e nas relações familiares é uma das questões que mais fascinam o psicoterapeuta paulista Ivan Capelatto, que lotou o o Cine Teatro Fênix na noite de anteontem. A palestra, terceira do estudioso na cidade, foi promovida pela rede educacional composta pelos colégios Platão, Mater Dei e Evolução.
Ivan Capelatto é psicólogo clínico e psicoterapeuta de crianças, adolescentes e famílias. Ele é supervisor do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicopatologias da Família na Infância e Adolescência (Geic) em Cuiabá e em Londrina. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC de Campinas, é professor convidado do The Milton H. Erickson Foundation Inc., em Phoenix, nos EUA, e professor do curso de Pós-Graduação da faculdade de Medicina da PUC–PR. Em entrevista à Tribuna, ele falou sobre o que ele considera o novo vício do século: a tecnologia, e o impacto disso no ambiente familiar.
TRIBUNA DO NORTE - O senhor é um dos principais pesquisadores do Brasil sobre o impacto das mídias tecnológicas nas famílias e na Educação. Qual o principal ponto desses estudos?
IVAN CAPELATTO - Tudo que a ciência e a tecnologia criaram tem dois lados. Na história da humanidade, todas as inovações tecnológicas trouxeram muitas coisas boas, mas também trouxeram males. Hoje, com a internet, conseguimos nos comunicar com as pessoas em tempo real. Mas ultimamente começou a surgir um fenômeno. A mesma compulsão vista com substâncias como álcool e drogas pode ser vista hoje com o uso do celular.
TN - O que essa compulsão gera?
CAPELATTO - As pessoas não conseguem mais viver sem isso. Há uma individualidade excessiva que começa a aparecer. O contato social começa a ficar secundário. Você já deve ter visto pessoas no restaurante que ficam só teclando, conversando com quem não está lá, ao invés de interagir com quem está. A partir disso, começa a surgir um fenômeno chamado Síndrome da Despersonalização, que é a criança, o adolescente e o adulto que começa a perder a noção da crítica sobre a realidade, sobre quem ele é e sobre o mundo real à sua volta.
TN - Quais os impactos mais graves da Síndrome da Despersonalização?
CAPELATTO - Ela pode ficar irreversível. Além da perda da noção de realidade e de crítica, as pessoas também começam a apresentar sintomas fisiológicos. Elas perdem a noção sobre o próprio corpo. Por causa do ambiente virtual, as pessoas chegam à situação de evitarem ir ao banheiro. Isso causa problemas na bexiga, no intestino, chegando a casos extremos, onde as pessoas perdem o controle sobre a urina e as fezes. Outras pessoas engordam, adquirem pressão alta e diversos outros problemas. Nós vamos ter problemas muito sérios com essa geração que vem vindo, ligadas compulsivamente na virtualidade. As pessoas não vão conseguir pensar. É o ‘aqui e agora’. Não tem ontem, não tem amanhã. É algo muito sério, muito grave.
TN - A tecnologia pode ser considerada um vício?
CAPELATTO - Sim. Hoje, o vício pela internet é igual ao vício pela cocaína, pela maconha, pelo álcool. Hoje existe, na maioria das universidades, grupos de apoio a pessoas viciadas em internet, mais ou menos nos moldes dos Alcoólicos Anônimos. As pessoas ficam reféns da tela e vão parando de ter pensamentos associativos para ter apenas pensamentos mecânicos. Sem o pensamento associativo, uma aula se torna chata, um livro, um filme... A pessoa que fica compulsiva pela virtualidade fica mais propensa a se viciar em outras coisas, como a droga e o álcool. Antigamente, o cigarro era a porta de entrada. Hoje, o celular é a nova porta de entrada para outras drogas.
TN - Muitos psicopedagogos apontam que a falta de limites é o principal problema na criação atual das crianças. Esses são exemplos também dessa falta de limites?
CAPELATTO - O tablet se tornou uma ótima babá. Vemos crianças no carrinho de bebê já com os aparelhos. Totalmente vidradas. Elas precisam do aparelho para comer, senão não comem. Se alguém tenta brincar com ela, a criança não dá bola. São casos clássicos de falta de limites. Ninguém disse que não pode jogar. Mas tem que estabelecer regras, horários. Tem crianças que não dormem, ficam constantemente com os aparelhos. Aí surgem problemas no crescimento, porque o sono fica afetado. O IGH, que é o hormônio do crescimento, só funciona durante a noite. Aí as crianças começam a ficarem menores, mais gordinhas e começam a recorrer a endocrinologistas para crescer. A consciência sobre essa verdadeira ‘falência humana’ é muito pouca. Teremos uma população extremamente doente em 10 anos.
TN - Qual o papel das escolas nesse aspecto?
CAPELATTO - As escolas devem monitorar as crianças, assim como os pais. Algumas escolas hoje estão utilizando tablets em sala de aula. Quando você utiliza a motricidade fina cmo quando você segura um lápis, você estimula o cérebro. Esta coisa - a digitação em um celular - limita o movimento. É um movimento mecânico. Os tablets podem ser utilizados pedagogicamente. Mas é muito difícil implementar isso.
TN - Com que idade uma criança deve ganhar o primeiro celular?
CAPELATTO - Aos nove, dez anos. O celular precisa ser encarado como um equipamento de comunicação com os pais. A criança vai fazer uma viagem com a escola, por exemplo, e tem a possibilidade de contatar os pais. O que nós aconselhamos é que sejam comprados aqueles celulares mais baratos, simples, para que a criança possa fazer ligações, mas que não fique refém da internet. Elas podem ter seu video-game em casa, seu computador, sem problema nenhum, desde que os pais coloquem limites e monitorem o uso desses aparelhos. O celular é mais difícil de monitorar. Por isso é interessante esses celulares mais baratos, que não proporcionam a internet. Hoje, há uma ‘febre’ em torno dos celulares ‘da moda’. Conheço criança que tem três aparelhos.
TN - A distância entre pais e filhos hoje em dia aparenta ser muito maior do que há 20, 30 anos. Tem acontecido um embate mais intenso entre gerações atualmente?
CAPELATTO - Não tem havido um embate entre gerações porque não existem mais gerações. O filho trata o pai como igual, chama a mãe pelo nome, xinga, bate. Cada um fica em um canto da casa. Não existe mais vida afetiva em família. Isso se iniciou quando começamos a medir a vida através do dinheiro. Muitos pais têm dois empregos, ficam o dia todo fora, deixam as crianças desde pequenas com babás, em creches, o dia todo nas escolas... A ganância fez com que começássemos a termos filhos sem um propósito. Perdemos o laço afetivo. E isso é igual radioatividade: demora 300 anos para ser consertado.
TN - O conceito de família como entendemos hoje é relativamente recente, vindo do século 19. Estamos vivendo uma nova ruptura desse conceito?
CAPELATTO - Sim. Estamos vivendo a perda dos papéis familiares e a quebra do laço afetivo. A criança fica sempre com pessoas diferentes, ora com a babá, ora com a professora, com a mãe, com a avó, enfim, vai saltando de pessoa em pessoa. Não tem mais vínculo. Aí vamos cada vez mais perdendo esse conceito de ‘família’. Hoje, temos pessoas morando juntas. E a ausência do afeto contaminou tudo. O sexo começa cada vez mais cedo, os adolescentes saem de casa cada vez mais novos, com 13, 14 anos, o abuso de substâncias como álcool e drogas têm aumentado, o índice de suicídios entre jovens também.