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Casos de assédio chocam comunidade universitária

CINDY SANTOS APUCARANA

| Edição de 11 de agosto de 2019 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Uma denúncia de assédio sexual chocou a comunidade acadêmica da do campus de Apucarana Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Uma acadêmica expôs a situação nas redes sociais e trouxe à tona outras situações, incluindo uma denúncia de estupro envolvendo alunos da instituição de ensino.  

A estudante de 25 anos aceitou falar com a Tribuna por telefone, porém pediu para não ter nome e curso divulgados. Ela afirma ter sido assediada em junho, por um técnico contratado pela Atlética das Engenharias XII de Março, entidade responsável em promover e coordenar a parte esportiva da universidade, cuja direção é formada por alunos. Ela conta que foi incluída em um grupo de whatsapp dos atletas que estavam em treinamento para uma competição estadual, e que logo após ser adicionada, um homem passou a curtir várias fotos suas no Instagram. “Depois vi que o rapaz era o treinador. Achei estranho, mas pensei que ele só queria saber quem eu era”, disse. 
A estudante conta que foi acompanhada do namorado no primeiro treino, quando foram distribuídos kits com abadás e acessórios. No local estavam o treinador e mais três alunos que competem pela atlética. “Ele foi muito simpático me deu muita atenção. Me incomodou porque ele queria ficar pegando muito para ensinar. Achei estranho e falei com meu namorado, mas depois pensei que era coisa da minha cabeça”, relata a jovem. 
Outro treino foi marcado para ser realizado no Complexo Esportivo José Antônio Basso (Lagoão). A estudante conta que quando chegou no local combinado notou que os outros alunos não estavam lá e que o treino seria entre ela e o técnico, pois os outros teriam treinado antes. Foram feitos alongamentos, corridas e a partir de determinado momento o assédio começou. A vítima relata que o técnico se aproveitava de determinadas situações para apalpar partes do seu corpo. “Fui tirar meu agasalho porque estava calor, e ele veio e segurou na minha barriga. Depois pediu para eu correr e em determinado momento ele foi atrás, depois começou a me massagear. Depois, quando eu estava me alongando, ele ficava me apertando e com o corpo dele na linha do meu rosto. Isso me deixou em pânico”, afirma. 
A estudante relatou que ficou em estado de choque e sem reação quando o técnico começou a passar o rolo de massagem em seu corpo, passando as mãos muito perto de suas partes íntimas. “Saí de lá em choque. Meu namorado foi me buscar e me viu chorando muito. Eu contei tudo a ele”, recorda. 
Diante da gravidade do ocorrido, ela decidiu relatar tudo à direção de esportes da Atlética, que inicialmente afirmou que tomaria medidas cabíveis. Quando soube que o técnico continuaria no cargo depois das férias de julho, ela decidiu expor a situação nas redes sociais. 
“Decidi expor a situação, pois ninguém me prestou auxílio e eu não sabia como reagir e estava em estado de choque”, afirma. 
A estudante mora em outro Estado e disse que vai procurar a Delegacia da Mulher quando voltar para Apucarana. Ela afirma que após tornar pública a situação, ela tomou conhecimento de pelo menos mais duas meninas que afirmam terem sido assediadas pelo mesmo técnico da atlética. 
Um caso de estupro ocorrido durante uma festa promovida pelo Diretório Central de Estudantes (DCE) de Engenharia Têxtil também veio à tona com a revelação do do assédio. A Tribuna conseguiu falar com a aluna de 21 anos. Ela disse que estava se relacionando com outro aluno da universidade e que os dois foram em uma festa. Meia hora depois de consumir uma bebida ela apagou e acordou em uma república com o rapaz. No local havia mais dois homens. 
“Acredito que foi colocado algo na minha bebida. Eles estavam na casa e tecnicamente eu não sei se foi só ele”, conta a estudante que acabou ficando grávida.  
A estudante afirma que também sabe de outros casos envolvendo meninas que tomaram o conhecido ‘boa noite cinderela’ e que apagaram durante festas da universidade.

Polícia Civil investiga estupro
A delegada titular da Delegacia da Mulher de Apucarana, Sandra Nepomuceno, confirmou o registro de um boletim de ocorrência de estupro por parte da estudante da UTFPR e disse que segue investigando o caso, ouvindo amigos em comum que presenciaram o momento em que a vítima ficou desacordada e foi levada à república.
“É um procedimento mais demorado, pois tenho que ouvir outras pessoas para saber se a versão é a mesma. A alegação dela é um pouco sensível porque trata-se de um rapaz com quem ela estava tendo um relacionamento amoroso”, comenta a delegada.
Segundo ela, a Polícia Civil procura provas materiais, como imagens das câmeras de segurança de imóveis próximo ao local onde a festa foi realizada e também perto da república onde a moça acordou.
A delegada orienta que em caso de estupro a vítima vá imediatamente à delegacia registrar boletim e não se desfaça de provas como as peças de roupas usadas no momento do crime sexual. “As roupas contêm a prova absoluta da autoria do crime. Por mais difícil que seja, uma vez que o ato aconteceu, preserve a roupa e leve-a à delegacia porque as peças serão periciadas e podemos ter mais agilidade no processo”, orienta.
Casos de assédio moral e importunação sexual são mais difíceis de ter provas materiais.  “Não se desespere. Veja se existem testemunhas e se no local existe câmeras para trazer essas informações pois a nossa dificuldade é justamente identificar a pessoa”, comenta.

Atlética divulga nota oficial
Em nota, a Atlética XII de Março confirmou que tomou conhecimento sobre um caso de assédio sexual ao qual descreveu como “atitudes inadequadas e escolhas erradas”. 
No texto, a equipe pede desculpas públicas a todas as atletas, estudantes e mulheres que, em algum momento ou situação, tenham se sentido ofendidas por práticas não condizentes com o espírito da organização. Conforme a direção, o envolvido foi desligado de qualquer vínculo com a atlética. Além da demissão, a equipe se colocou à disposição da aluna para prestar apoio no âmbito psicológico e jurídico. A Tribuna entrou em contato com o presidente da entidade para tentar falar com o suspeito de assédio, contudo, não teve resposta.

Direção da UTFPR vai desenvolver ações preventivas
O diretor-geral da UTFPR, Marcelo Ferreira, disse que tomou conhecimento apenas de uma situação de assédio e que entrou em contato com a aluna oferecendo apoio. “Como diretor, preciso deixar claro que a Atlética é uma associação de alunos, é não tem nada a ver com a estrutura da universidade. “A atlética contrata os profissionais liberais fazem contratos e esses profissionais dão treino a eles. O grupo usa a estrutura da cidade e ocupa os espaços para fazer esse treino. Não é nenhum serviço da UTFPR. Não existem recursos direcionados a isso”, afirma.
Segundo o diretor, serão desenvolvidas ações junto ao Núcleo de Apoio Psicopedagógico (Nuap) para combater esse e outros tipos de crime, com palestras de conscientização. “A universidade não admite nenhum tipo de injustiça, agressão, muito menos abuso, violência, somos contra e combatemos veementemente esse tipo de situação.