Cada cultura constrói uma forma de ver e dar assistência ao processo do parto. No Brasil nas últimas décadas, as cesarianas aparecem em excesso, tanto que em 2015 a Organização Mundial de Saúde (OMS) encaminhou um alerta, já que o país é o único lugar do mundo com mais da metade dos nascimentos, ou seja, 53% dos partos são feitos por cesáreas. Mas, nem sempre foi assim. houve um tempo em que os partos no país eram feitos com a contribuição das parteiras tradicionais no seio familiar. Elas tinham um papel muito importante junto às comunidades, sobretudo onde não havia unidades de saúde.
Maria Izabel da Silva, de 90 anos, a mãe Izabel ou vó Izabel, como é chamada carinhosamente pelos moradores de Lidianópolis é uma dessas parteiras tradicionais que atuou por mais de 50 anos atendendo mulheres. Há anos ela perdeu a conta de quantos partos acompanhou, mas estima a realização mais de 500.
Maria Izabel relata que aprendeu o ofício sozinha, no estado de Pernambuco quando já era mãe. “O meu primeiro filho eu nem vi nascer, porque eu tinha 17 anos e passei tão mal que desmaiei”, relembra.
Ela não lembra de quantas crianças ajudou, mas a primeira ela não esquece. Quando tinha 20 anos uma cunhada entrou em trabalho de parto e, com a necessidade, se viu obrigada a colaborar. “Com a bênção de Jesus e da Imaculada Conceição, a criança nasceu com 4,1 quilos e dali em diante, sempre fui solicitada para atender mulheres em trabalho de parto”, relata Maria Izabel.
Bem humorada, Maria Izabel relata que ajudou no último parto quando tinha 75 anos e não continuou por conta da visão e a idade que não mais ajudava. “A vista já não estava muito boa e fiquei com medo de cortar o pipi do neném em vez do cordão umbilical”, brinca Maria Izabel.
O grande orgulho da parteira é que durante o tempo de ofício nunca viu nenhuma mãe ou criança morrer durante o parto, uma realidade bastante presente onde faltam recursos médicos. “Me sinto muito feliz por ter feito isso na minha vida. Hoje vejo, crianças que ajudei trazer ao mundo me chamarem de vó ou mãe, é um prazer muito grande sentir esse carinho. Me considero muito estimada pela família e pelo povo todo”, afirma Maria Izabel.
A filha da parteira aposentada, Marileidi Izabel da Silva, conta que apesar da mãe nunca ter horário, uma vez que os bebês não nascem apenas em horário comercial, ela sempre gostou de ajudar. “Ela fazia por caridade, o prazer dela é ajudar as pessoas, ela nunca cobrou nada de ninguém. Até porque ela sempre foi costureira. Até hoje, mesmo com a idade avançada faz artesanato”, comenta Marileidi.
Dona Maria Izabel tem intimidade com a maternidade. Ela teve 12 filhos naturais e ainda adotou seis.
Outro dom de Maria Izabel é a oração. Católica carismática, ela costuma ser procurada pelas pessoas para fazer oração. “Não sou benzedeira nem curandeira, eu tenho o dom que Jesus me deu, porque o benzedor recebe o dinheiro, eu não. E faço a oração na esperança e na confiança, porque se for firme com Jesus, ele nunca falha, sempre cura. A oração faz parte do chamado de Deus para todos nós. Ele quer que façamos intercessão pelos outros, que amemos as pessoas em oração”, ensina Maria Izabel.