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Crise afeta confiança nos Correios

Renan Vallim

| Edição de 02 de abril de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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O serviço prestado pelos Correios já foi sinônimo de qualidade. Hoje, a realidade é outra e funcionários dos Correios estão apreensivos com o rumo que a empresa pode tomar, caso a declaração do ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab, saia do papel para se tornar realidade. O ministro afirmou nesta semana que os Correios podem ser privatizados, apesar dos esforços da pasta em buscar de volta a rentabilidade da empresa, que já foi uma das mais lucrativas do Brasil e vem amargando prejuízos.

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Segundo Kassab, os Correios correm “contra o relógio” para evitar a privatização e que a estatal necessita de um profundo corte de gastos para não ser privatizada. Apesar disso, o ministro se diz contrário à privatização e afirma que o governo está fazendo “todo o esforço” para evitá-la. “É uma constatação difícil. Sou contra a privatização, mas não há caminho”, declarou a jornalistas.
Diretor do Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná (Sintcom-PR) em Apucarana, Fabiano Silvério explica que o clima é de preocupação entre os funcionários. “Essa é uma preocupação antiga nossa, mas agora o governo está falando abertamente na privatização. A corrupção, o excesso de patrocínios e a má administração da empresa levaram os Correios a um patamar de déficit, o que faz com que o governo pense em privatizar”, diz.
De acordo com ele, os problemas enfrentados pelos Correios foram causados pelo próprio Governo. “Até 2011, os Correios eram uma empresa superavitária, com lucro de R$ 6 bilhões em caixa. A partir daí, a porcentagem do lucro da empresa que vai para o Governo foi sendo aumentada cada vez mais. Até que, em 2014, apareceu o rombo nas contas. Isso, combinado com os diversos patrocínios dos Correios a modalidades esportivas e eventos culturais, além das denúncias de corrupção, fizeram com que a empresa chegasse a essa situação”, afirma.
“A única salvação seria uma mobilização do sindicato e também da sociedade, para evitar que o governo privatize a companhia. Se houver a privatização, funcionários com 20 anos de casa, com enorme compromisso com a empresa, correm o risco de serem mandados embora. Isso faria com que a qualidade do serviço caísse e os custos subissem para a população”, ressalta Fabiano.
O último concurso público dos Correios foi em 2011. Desde então, foram três Programas de Demissão Voluntária (PDVs). O último foi iniciado no mês passado, com expectativa de adesão de 5 mil funcionários. Recentemente, os Correios anunciaram o fechamento de 250 agências no país em um pacote de medidas para reduzir despesas de custeio.
De acordo com Fabiano, essas medidas contribuem apenas para aumentar o déficit de funcionários, o que impacta diretamente na qualidade dos serviços.

Cartas chegam com atraso
A precarização dos serviços dos Correios se reflete diretamente no serviço prestado. Em Apucarana, o que não faltam são reclamações, sobretudo nos bairros mais distantes. “Nenhuma postagem chega quando deveria. Todas as contas chegam sempre já vencidas, algumas com mais de uma semana. É complicado, porque a gente tem que ficar pagando juros”, afirma Adésio Clemente, que trabalha com reciclagem e mora no Jardim Eldorado.
“Esse é um problema que começou no ano passado. A gente tem que ficar correndo atrás, ligando para as empresas para tentar antecipar o pagamento e fugir dos juros”, diz a dona de casa Edinéia Fernandes, que mora no mesmo bairro.
Em outros bairros, entretanto, o problema é bem mais antigo. A prestação inadequada dos serviços postais em Apucarana está sendo discutida na Justiça. Após negociar por três anos acordos que nunca foram cumpridos com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, o Ministério Público Federal ingressou em 2015 com uma ação civil pública contra a empresa para garantir a prestação adequada. A ação pede uma indenização de R$ 64,6 milhões a título de danos morais coletivos.
O mesmo problema ocorre em outros municípios. Em Arapongas, moradores de doze bairros do município – incluindo residenciais entregues pelo Minha Casa, Minha Vida - simplesmente não tinham acesso a nenhum serviço de entrega de correspondência. A deficiência, que foi tema de reportagem da Tribuna, foi corrigida em algumas localidades. Em outras, que não preenchem requisitos dispostos em legislação federal, como classificação de área urbana, o serviço continua sem chegar.