Um levantamento recente feito pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) mostra um avanço significativo de estudantes de escolas públicas em universidades. A pesquisa, feita em 2014 e divulgada no ano passado, retrata o perfil socioeconômico e cultural dos estudantes de graduação das instituições federais brasileiras de ensino superior. Em 2014, 60% dos alunos fizeram o ensino médio em escola pública. Esse número, em 2010, era de 44,8%.
Segundo o relatório da pesquisa, os dados refletem, as políticas de democratização do acesso às vagas das universidades públicas a partir de 2009.
Na avaliação do doutor em matemática e membro da Andifes, João de Deus Mendes da Silva, o ingresso de estudantes de redes públicas nas universidades federais está relacionado com políticas públicas de ações afirmativas, em especial com a Lei das Cotas, que foi aprovada em 2012. “A tendência é que, nos próximos anos, o índice de estudantes de escolas públicas se estabilize”, acredita.
De acordo com o pró-reitor de Assistência Estudantil da Universidade Federal do Maranhão e coordenador Nacional do Fórum de Reitores de Assistência Estudantil e Assuntos Comunitários, as Lei das Cotas é extremamente significativa para que haja o ingresso e a formação de alunos pobres, que naturalmente não teriam condições de cursar uma universidade. “Esses estudantes, ao ingressarem nas universidades, se tornam referência para a família, amigos e para toda uma comunidade. Ter acesso a um curso superior passa a não ser mais visto como algo distante”, pontua.
Silva observa, no entanto, que o ingresso desses alunos exige um novo olhar das universidades, em especial ao que se refere a políticas de apoio ao estudante, para que não abandonem o curso, e também de aprendizagem, como a participação em grupos de pesquisas. “Esses alunos, num primeiro momento, enfrentam inúmeros desafios, mas conseguem se desenvolver normalmente e se tornarem bons profissionais”, diz.
Segundo o pró-reitor, esses alunos causam um impacto significativo na sociedade, uma vez que não serão somente profissionais qualificados, mas também empreendedores. “As universidades precisam ter a cara do Brasil, para que a sociedade possa mudar em todas as suas esferas”, destaca
Agronomia com sotaque francês
João Marcos Novais, 24 anos, estudante do quarto ano de agronomia na Universidade Estadual de Londrina, faz parte dessa mudança uma mudança significativa quando o assunto é ensino superior. O apucaranense nasceu no Distrito de Correia de Freitas.
Filho de pais simples, do campo e pouco letrados, como ele mesmo define, sem deixar de frisar que isso não impediu que eles dessem o suporte necessário à sua formação, o jovem voltou, neste ano, de um intercâmbio no Instituto Nacional de Ensino Superior em Ciências Agronômicas de Montpellier, na França. Ele não é o único da família no ensino superior, tem irmãos que já conquistaram o famoso canudo ou estão a caminho de segurar o diploma, todos em universidade pública.
O estudante, que fez todo o ensino médio no Colégio Estadual Nilo Cairo, em Apucarana, avalia que há uma maior participação de alunos oriundos de escolas públicas na comunidade estudantil de ensino superior. “Apesar de termos um ensino público que, muitas vezes, fica aquém do desejável, esse dado mostra uma maior inclusão nas universidades e superação das dificuldades inerentes àqueles que estudam em escolas públicas. Pesquisas mostram que alunos provenientes de escolas públicas, em geral, têm um desempenho igual ou superior aos oriundos de ensino privado”, sublinha.
O estudante, que avança para o último ano da graduação de agronomia, garante que aproveita todas as oportunidades, desde o desenvolvimento de projetos de pesquisa científica na própria instituição e em órgãos parceiros, assim como o intercâmbio acadêmico na Europa. “Já se foram quatro anos intensos. Em agosto, de 2016, se deu início a minha maior aventura. Fui contemplado com uma bolsa de estudos para ingressar em uma universidade francesa, na cidade de Montpellier, pelo período de um ano”, revela.
“Na França, tive uma das melhores experiências de vida. As vantagens de se fazer esse intercâmbio são inúmeras como o aperfeiçoamento na língua francesa, contato com uma cultura completamente diferente e conhecer gente do mundo todo, abriram meus horizontes, além de ter acesso a uma universidade reconhecida mundialmente pela qualidade de ensino, que me permitiu ampliar o campo de visão a respeito da agricultura no mundo”, diz.
Um engenheiro multicultural
O apucaranense Glauber Taiguara Caznoca de Oliveira, de 32 anos, também concluiu boa parte de sua formação educacional em escola pública e, atualmente, também faz Engenharia Mecânica, na França, através de programa de intercâmbio com a Universidade de Tecnologia de Compiègne. Até conseguir frequentar uma universidade francesa, o apucaranense fez alguns semestres do curso de Turismo, desistiu e começou a trabalhar com mecânica. Foi com as experiências do dia a dia que decidiu buscar mais e enfrentar novamente um vestibular.
Em 2014, fez várias provas, inclusive para a Universidade Federal do Paraná (UTFPR), de Curitiba, e conseguiu. “Eu passei para começar a estudar no segundo semestre, mas, por excesso de sorte, passei também pelo Sisu e comecei no 1° semestre”, recorda. E para chegar à Europa, ele revela que “foi aproveitando as oportunidades que apareciam”.
“No Brasil, eu estaria no oitavo semestre, mas aqui (França) tenho mais três semestres pela frente”, diz. Porém, o tempo a mais de estudo não é visto como desvantagem, pelo contrário. “Só o fato de ter um curso superior já é um diferencial, e ainda mais em engenharia que é uma área especializada em resolver problemas. O intercâmbio faz a diferença no currículo e na experiência pessoal também”, diz.
“Acredito que os novos conhecimentos vão me abrir mais possibilidades de escolha no futuro. Posso fazer um trabalho muito mais específico e aprofundado em veículos ou mesmo trabalhar em outra coisa completamente diferente. A gente fica mais versátil profissionalmente”, afirma, observando que ainda não foi possível conhecer outras cidades francesas, apenas o frio e a culinária.
Já quanto aos estudos, ele diz que “o ritmo que é mais puxado, mas o conteúdo é o mesmo. São as mesmas informações que temos no Brasil, mas a maneira de encarar e trabalhar com elas que mudam”, ressalta.
Assim como João Novais, a mãe de Glauber também não tem curso superior. Ela terminou o ensino médio há cerca de 10 anos, mas já os irmãos seguem seus passos. Sobre essa mudança em família Glauber avalia que é algo definitivo. “É uma experiência nova, mas está começando a ser a nova regra. Outros parentes meus da minha idade ou mais novos já estão formados ou se formando. Eu diria que é uma nova fase”, avalia.