A decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, titular da 14ª Vara da Justiça Federal de Brasília (DF), divulgada anteontem causou polêmica ao permitir que psicólogos possam tratar a homossexualidade sem sofrer qualquer advertência do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A deliberação, que tem caráter liminar, altera a Resolução 01/1999, que estabelece normas de atuação em relação à orientação sexual. A medida reacendeu o debate sobre a “cura gay”, provocando inúmeros discussões sobre o assunto. Vista como um retrocesso por uma parcela importante da comunidade científica, entretanto, a decisão encontra apoio em profissionais que defendem a possibilidade da reversão sexual. Um exemplo é o psicanalista sistêmico Celso Scheffer, de Apucarana.
“A reversão sexual é possível através Abordagem Sistêmica das Memórias Inconscientes (ASMI)”, argumenta o profissional que afirma ter ‘revertido’ mais de 200 casos de homossexualidade em seu consultório através do método desenvolvido por ele à frente do Instituto de Pesquisas e Tratamentos Humanísticos (IPTH).
“Com essa terapia, nós conseguimos, durante regressão, abrir a frequência da pessoa e acertar a polaridade sexual, que geralmente está invertida nesses casos”, sublinha. Isso ocorreria, segundo o psicanalista, durante o processo de transmigração da alma. “Pessoas homossexuais, geralmente, tiveram um período muito curto entre uma reencarnação e outra. Quando isso ocorre, a polaridade fica invertida”, explica.
Ainda de acordo com Scheffer, é considerado um período curto, entre uma reencarnação e outra, 50 anos. Além disso, existem os “gatilhos”. “Além da pessoa já ter essa predisposição, quando a mãe deseja muito um menino, mas nasce uma menina, acaba ativando esse “gatilho”, exemplifica.
Scheffer calcula que, durante os mais de 30 anos de consultório, já ajudou mais de 200 pessoas a se reencontrarem com seu eu interior.
Apesar de defender a reversão sexual, o psicanalista não entende a homossexualidade como doença. “A homossexualidade não é doença, mas sim uma disfunção energética, que tem todas as possibilidades de ser corrigidas com terapia”, ressalta o psicanalista que destaca que os pacientes o procuram para resolver outros problemas – caso da depressão – e que a reorientação sexual ocorre durante o tratamento.
Decisão é vista como retrocesso
Para a psicóloga Juliana Marques Garcia Ferreira, de Arapongas, a decisão significa um retrocesso. “O juiz manteve a integralidade da resolução, mas disse que CFP não pode impedir psicólogos de promoverem atendimento profissional, pertinente à reorientação sexual. Desse modo, acaba abrindo espaço para terapias de reversão e fortalece mais ainda a patologização das identidades LGBT e disseminação o preconceito”, entende.
De acordo com a profissional, o homossexual que busca na psicologia algum tipo de ajuda não tem o objetivo de “tratar” a sua orientação. “Eles nos procuram por conta da desvalorização social e moral, que é o preconceito que vivem, de exclusão, de tentar se enquadrar em um padrão que é dito como correto. Esse é o sofrimento do homossexual quando vai buscar ajuda clínica”, diz.
Na avaliação da psicóloga, estudos apontam ainda que as terapias de reversão sexual não trazem nenhum tipo de resolução. Ao contrário: “provocam sequelas e agravos no sofrimento psíquico”.
Juliana frisa ainda que esse tipo de tratamento é, inclusive, proibido por meio da resolução 001/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e também vai em direção oposta ao posicionamento da Organização Mundial de Saúde (OMS), que desde 1990 deixou de considerar a homossexualidade como doença. (NATHALIE BAGATINI)
Decisão reforça estigmas
Para o jornalista Bruno de Almeida, de 31 anos, de Londrina, a decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, é uma afronta a todos os direitos conquistados pela comunidade Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT). Integrante da classe, ele defende que “não existe tratamento para quem não está doente”.
“Vejo com muita preocupação o avanço desta onda de retrocessos que estamos enfrentando. O Brasil é o país que mais mata homossexuais em todo o mundo. A luta de todos nós para que a homofobia seja criminalizada é justamente para evitar que decisões absurdas como esta, que afetam diretamente a vida e a segurança social de uma grande parcela da população, reforcem ainda mais o estigma de que ser gay é uma doença”, declara.
Ainda de acordo com Almeida, a determinação é mais um embate em meio a todos que já são enfrentados diariamente.(NATHALIE BAGATINI)