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Evolução ética em andamento

Renan Vallim

| Edição de 07 de agosto de 2016 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Apesar de apresentar o programa Café Filosófico na TV Cultura, o historiador e intelectual Leandro Karnal é um verdadeiro fenômeno na internet. Alavancado por vídeos de palestras e entrevistas no YouTube, Karnal cultiva sua base de fãs através de respostas bem humoradas aos seus seguidores no Facebook. Em Apucarana para uma palestra promovida pela Delegacia local da Conselho Regional de Administração (CRA), ele conversou com a Tribuna sobre política, crise e aquilo que ele chama de “revolução ética” na sociedade brasileira.

Imagem ilustrativa da imagem Evolução ética em andamento

Leandro Karnal é gaúcho e tem 53 anos. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), ele é atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na área de História da América. Karnal tem diversas publicações sobre o passado do nosso continente.

TRIBUNA DO NORTE - O trabalho do senhor é fortemente baseado pela discussão da ética na sociedade. Ações não éticas fazem parte da cultura e da sociedade brasileiras?

LEANDRO KARNAL - A sociedade brasileira foi marcada durante muitos anos por uma grande tolerância a práticas não éticas. Desde o trânsito, com pessoas que não respeitam a faixa, xingam o motorista do lado, passando pela educação, com pais que toleram a fraude escolar, professores que não respeitam o horário de aula, até a própria sociedade, que tolera comentários machistas, homofóbicos, misóginos e racistas. São pequenos deslizes não éticos, como esses, que levam aos grandes deslizes. É muito mais grave desviar merenda de escolas públicas do que andar em uma faixa proibida, porém uma coisa liga à outra. Um dentista, por exemplo, que passa a consulta toda xingando o governo, mas não dá nota fiscal ao paciente, não percebe que a falta de ética passa por ele, e que um governo corrupto representa justamente esse tipo de ação.

TN - Como fazer com que as pessoas entendam que a corrupção e a falta de ética não são exclusividade de políticos?

KARNAL - É preciso um convencimento moral de que todo o ato individual afeta ou compromete todo o grupo. É preciso introduzir um pensamento de responsabilidade, que é fraco no Brasil. As pessoas buscam atribuir o que acontece com elas a fatores externos, como signo, genética, doença, hábito ou outras explicações que, na realidade, servem para “tirar o nosso da reta”. Ninguém nasce de uma determinada forma. Ninguém pode dizer “eu sou assim mesmo e pronto”. As pessoas precisam se responsabilizar e mudar características suas que não são boas. Se a sociedade tem problemas, é por conta de ações individuais de seus membros.

TN - É possível mudar o panorama político no Brasil?

KARNAL - Estamos vivendo atualmente em um mundo onde se grava tudo, se filma tudo, se registra tudo. Isso tem revolucionado a política. Os políticos fazem hoje a mesma coisa desde 1500. No entanto, isso tem mudado, e por pressão. Essa mudança é notável. Tanto debate sobre ética mostra como essa preocupação está no cerne da sociedade atualmente. Viajo por todo o Brasil e vejo essa indignação, essa saturação da situação atual. Isso é importante.

TN - Podemos observar uma polarização nas discussões, sobretudo na internet. Não há uma grande profundidade nessas discussões, não há um grande debate de ideias. Como o senhor avalia essa situação?

KARNAL - No meio de toda a gritaria da internet, por onde flui toda a indignação, frustração e raiva das pessoas, tem muita gente pensando em um futuro melhor. Essa indignação é um bom começo. Hoje, diferentemente do que há 30 anos, todos têm opinião política. Alguns até demais, alguns ainda não aprenderam a discutir, apenas a adjetivar e a insultar. Mas já é um começo.

TN - Períodos de crise econômica e política, como a que vivemos hoje, potencializam ações não éticas?

KARNAL - Quando os mais jovens reclamam de uma inflação de 7% ao ano, preciso lembrar que, no final do governo Sarney, a inflação era de 34% ao mês. Podemos observar nebulosos sinais de melhora, ou seja, a febre não baixou, mas parou de subir. É possível que tenhamos um fim de ano melhor do que tivemos alguns meses passados. A crise, para mim, é um momento de mudança. A palavra “crise” tem origem na medicina grega e significa um dia crucial para o paciente, que pode levar a uma melhora ou à morte. A crise é um momento de testar pessoas. Todos são bons motoristas em uma estrada bem asfaltada, durante o dia e sem carros. Poucos dirigem bem em uma estrada cheia de buracos, a noite e com chuva. A crise é uma espécie de processo seletivo.

TN - Teremos eleições neste ano. Como refletir essa indignação no pleito?

KARNAL - O privilégio das eleições municipais é o conhecimento e a proximidade dos candidatos com os eleitores. É hora de checar o currículo do candidato, se ele fala de ética, se ele age com ética. Mas a mudança na política é apenas o topo da pirâmide. O que precisa mudar é a sociedade. A mudança na política eu acho fácil. Já a mudança na cultura brasileira não é para essa geração. Mas tem que começar agora. E eu acho que começou. Estamos passando por uma revolução ética.

TN - É possível ter esperança em uma evolução da sociedade?

KARNAL - Se o Brasil continua hoje, não é graças aos seus governantes, mas aos cidadãos produtivos, que em meio à crise continuam acordando cedo e indo trabalhar, produzir. Esse Brasil trabalhador tem que se dar conta de que é a maioria, de que paga involuntariamente altos impostos, de que tem uma submissão enorme na cadeia produtiva e de que é quem mais depende de valores. A maioria absoluta das pessoas na sociedade brasileira é ética: devolve troco errado, se mantém na faixa correta ao invés de cortar pelo acostamento, entre outros exemplos. A maioria também é tolerante com ações não éticas, o que é típico de uma cultura colonial, como a brasileira.