A dona de casa Joice Valério Gomes, de 23 anos, mora em uma favela e divide a casa de quatro cômodos com o marido, os quatro filhos pequenos e alguns visitantes que não são bem-vindos: ratos, baratas e até cobras e morcegos já entraram no local, levando apreensão e mesmo doenças para a família. Moradora da Vila Santo Antônio, em Jandaia do Sul, ela faz parte das 75 famílias que serão as primeiras beneficiadas pelo programa Vida Nova, iniciativa do Governo do Estado para reduzir o número de favelas no Paraná.
O projeto-piloto do Vida Nova, que será implantado em Jandaia do Sul, foi lançado pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior no final de novembro, e as casas deverão ser construídas no ano que vem. A previsão é que sejam atendidas 2.500 famílias por ano, de todo o Estado, até de 2022.
Assim como os seus vizinhos, Joice conta os dias para embarcar com a família no Vida Nova e deixar para trás a residência precária. “A chuva quando vem, sai arrastando tudo, entra dentro de casa. Tem muitos bichos, ratos enormes, já entrou cobra e um morcego que pousou no carrinho da bebê. Meu filho está com cobreiro por causa disso”, conta Joice, que mora na vila desde que nasceu. “Não vejo a hora de ir para o novo lugar”, visualiza Joice.
Algumas ruas e meio século de vida separam Joice da pensionista Maria de Lourdes Antunes, uma das moradoras mais antigas do local. Lourdinha, como é chamada, tem 73 anos e vive na Vila Santo Antônio há 37. A primeira casa que construiu no local, feita com madeiras reaproveitadas de uma antiga igreja, desabou alguns anos após ser construída.
A residência que hoje ela divide com a filha e os netos não está em situação muito melhor. As paredes de madeira estão velhas e o telhado de fibrocimento está cheio de goteiras.
“Quando chove molha tudo, as paredes estão podres, está caindo tudo, as telhas estão quebrando e eu não tenho mais como arrumar. A fossa é na frente de casa, isso nem faz bem. Rato e barata é o que mais tem”, diz. “Nunca tive gosto de ter uma casa bonita, boa. No final da vida ganhar uma casinha é a alegria da gente”, afirma.
PROGRAMA
Mais que moradias populares, o programa se destaca por englobar ações multidisciplinares que envolvem 16 órgãos estaduais e um objetivo comum: fazer a inclusão social das famílias, dando acesso completo e integral às políticas públicas do Estado.
“É um programa que pode ser exemplo para o mundo, por trabalhar com ações integradas que trarão uma perspectiva real para essas famílias. Além de casas novas e seguras, elas terão acesso a serviços públicos, projetos educacionais e de capacitação profissional”, afirma Ratinho Junior. “É a primeira vez que o Estado propõe um programa de desfavelamento no Paraná, que vai tirar pessoas de áreas de risco, extremamente carentes, para dar a elas dignidade e qualidade de vida”, ressalta.
Os moradores serão realocados para casas populares que serão construídas pela Cohapar em um local apropriado, dentro da malha urbana do município. Como se trata de pessoas em situação de vulnerabilidade social, os imóveis serão repassados gratuitamente aos futuros proprietários.
Diagnóstico e mapeamento
O trabalho multissetorial para a implantação do Vida Nova começou com o diagnóstico das famílias de Jandaia do Sul e o mapeamento da área onde vivem. O objetivo foi identificar quais políticas públicas são mais necessárias e se as pessoas precisam de um atendimento específico nas áreas de saúde, educação, assistência social ou segurança, por exemplo.
O levantamento constatou, por exemplo, que todas as residências têm ligação de água e energia, mas quase não há coleta e tratamento de esgoto.
Sandra Mara Fávaro, coordenadora do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) de Jandaia do Sul, explica que embora as residências tenham acesso à água e energia, muitas ligações são irregulares. “As casas não têm esgoto, os moradores puxam rabicho de água e de luz, não tem estrutura alguma”, afirma.
O auxiliar de serviços gerais Gilson Ferreira da Silva, de 58 anos, confirma essas informações. Morando há três anos no local com o filho de 29 anos, em um barraco de madeira de três cômodos, ele teve que voltar a utilizar lamparina, porque o vizinho de onde ele “puxava luz” cortou o acesso. “Fico muito feliz em saber que terei uma casa para morar. Eu nunca tive uma casa, até comprar esse barraco. Estou levando a vida assim, com dificuldade”, diz.
Área de preservação e risco de deslizamento
A Vila Santo Antonio está localizada em uma área de preservação ambiental, próximo à nascente do rio Marumbi, que abastece Jandaia do Sul. O volume de água no manancial, que integra a Bacia do Alto Ivaí, já foi considerado crítico, consequência da ocupação irregular na área.
A realocação das famílias também busca resolver esse problema. Após a desocupação das residências, o local passará por um processo de revitalização ambiental, coordenado pela Sanepar. A intervenção prevê a demolição das estruturas existentes, limpeza e implantação de um parque. Além de oferecer uma opção de lazer à população de Jandaia do Sul, o projeto também evita a reocupação irregular da região.
O terreno onde as famílias vivem hoje também está no mapa de atenção da Defesa Civil por causa da possibilidade de ocorrências de deslizamentos.