Ação corriqueira para muita gente, o simples ato de ligar e desligar o computador se tornaram motivo de orgulho e motivação para o ex-motorista Vilson Carvalho, 55 anos, de Apucarana. Há cerca de um mês, Caneco, como também é conhecido pela família e por amigos, participa de aulas de informática e para, como ele mesmo diz, se atualizar no mundo digital. O curso é voltado para idosos, mas uma parcela significativa dos alunos ainda não chegaram na terceira idade, o que mostra que a inclusão digital ainda é um desafio.
A iniciativa de estudar foi motivada após, segundo ele, passar vergonha em alguns lugares públicos, além de ser o único da família que não sabia navegar na Internet. “Meu neto de 6 anos sabe mexer no celular. Mas não foi só por isso. Um dia eu estava no banco e fiquei parado em frente ao caixa eletrônico porque não sabia depositar dinheiro. Um amigo chegou, me ensinou e aprendi. Mas pensei: estou atrasado. Na mesma época, fui à livraria e tinha um computador e eu não sabia digitar. Fiquei constrangido de falar que não sabia”, recorda.
Caneco vem se esforçando para utilizar também o WhatsApp no smartphone e conversar com a família e amigos. “Estou aprendendo devagar e estou com paciência. Quero comprar um notebook usado para treinar. Nunca é tarde para aprender”, conta.
O vigilante Hilário Aparecido Freitas, 54, participa das aulas de informática ofertadas no Sesc junto de Caneco, e foi motivado a estudar após uma entrevista de emprego que exigiu habilidade no computador.
O apucaranense conta que ficou um ano e meio desempregado e que recebeu uma proposta de trabalho, mas a oportunidade acabou passando pela falta de noções de informática. “Não consegui a vaga porque não sabia nem ligar o computador”, explica. Atualmente, ele está trabalhando, mas ingressou no curso de inclusão digital. “Eu gostando muito das aulas e pretende continuar”, ressalta.
Hilário ainda não tem computador em casa, mas tem smartphone e já aprendeu mandar mensagens pelo WhatsApp, Messenger e conversar com amigos no Facebook.
Outra aluna do curso é a dona de casa Teresa Cordeiro Carvalho, 54. O objetivo das aulas para ela é aprender a mandar mensagens pelo WhatsApp. Assim, ela pode conversar com os filhos e o irmão que mora em Curitiba.
Teresa é animada nos estudos. Recentemente, a dona de casa terminou o Ensino Médio, no Ceebja, além de frequentar aulas de inglês no mesmo local. “Não vejo a hora de chegar o dia das aulas. Por enquanto, só sei atender o telefone, tirar fotos e entrar no YouTube”, confessa.
O professor Rafael Bellafronte é quem leciona as aulas do curso “Inclusão Digital para Idosos”, no Sesc Apucarana, para pessoas acima de 40 anos. Ele ensina aos alunos desde ligar e desligar o computador, até entrar em sites e navegar pela internet, além de explicar como se mexe no smartphone.
São seis meses de curso e as aulas acontecem duas vezes por semana durante duas horas. Os alunos devem ter 85% de frequência nas aulas para passarem para o módulo seguinte. “Eles não faltam muito. Tento passar o máximo de otimismo para o pessoal porque geralmente eles chegam desmotivados e com medo de não aprenderem”, acrescenta.
Tecnologia ajuda no resgate da autoestima
Para a psicóloga Renata Garcia, de Apucarana, a tecnologia pode atuar como um elemento de ligação entre os idosos, se superados esteriótipos. “Eles acham que tecnologia e terceira idade não combinam”, explica. “Porém, lidamos cada vez mais com idosos extremamente ativos e fugindo da concepção de que o idoso deve ‘cuidar dos netos’, ‘fazer tricô’ e ‘dormir cedo’”, comenta.
Atualmente, de acordo com a psicóloga, é comum ver idosos com mais vitalidade e um fator que contribuiu para isso, e que é estudado no campo da psicologia, são as ferramentas tecnológicas. Não apenas a internet, mas também ferramentas de celulares e computadores. “Nos muitos estudos no país e também no exterior, vem se confirmando os benefícios de estimular o aprendizado de novas tecnologias aos idosos, tirando-os de suas zonas de conforto e rotinas”.
Renata cita que os resultados confirmados mostram que a tecnologia favorece a agilidade mental, a comunicação, novos conhecimentos. “Além de desenvolver nesta altura da vida, o que a maioria dos idosos perde: a autoestima e a ampliação dos relacionamentos que consequentemente, os deixa mais ativos”.
Independente da idade, na opinião da profissional, a maior parte das pessoas leva tempo para absorver novas tecnologias. Por isso, vale ressaltar que para os idosos este tempo de adaptação ao novo também acontece. “É importante educá-los neste mundo que, até então, é desconhecido para eles. Contudo, com paciência e adaptações, colocando o idoso em um curso de informática, por exemplo. É importante ter em mente que é possível inseri-lo neste meio”.
Para a psicóloga, essa inserção traz benefícios individuais e para a família do idoso, que passa a desfrutar com mais qualidade da companhia dos mais velhos. “Essa pessoa será mais comunicativa e ativa, e principalmente vai perceber que não existe idade para descobrir coisas novas”.