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Mapa do crack no Vale mostra que droga avança nos municípios menores

Vanuza Borges

| Edição de 02 de junho de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Um mapeamento feito pelo Observatório do Crack revela a interiorização do uso do entorpecente nos municípios brasileiros e suas consequências. O banco de dados, que é atualizado pelos gestores municipais, classifica os problemas relacionados ao uso do crack como alto, médio e baixo. Na região, dos vinte e sete municípios, 23, o que equivale a 85% relatam dificuldades relacionadas a questões decorrentes de criminalidade, tratamento de saúde, entre outros. A situação é considerada mais grave em municípios pequenos, mostrando que o problema não está concentrado apenas nas cracolândias, como da região da Luz em São Paulo, que foi alvo recente de uma ação polêmica da prefeitura local.
Na região, 18% dos municípios: Ivaiporã, Jardim Alegre, Marumbi, Rio Bom e São Pedro do Ivaí, qualificaram a situação como nível alto. Dos cinco que se classificaram neste índice, apenas Ivaiporã tem mais de 30 mil habitantes.
Outros 40% municípios da região entraram no mapa no índice médio de problemas decorrentes do crack, caso de Apucarana e Arapongas - maiores municípios da região - e 25% baixo (ver infográfico).
O monitoramento, que é realizado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), mostra que a droga se tornou um problema grave para 20% dos municípios brasileiros. No Paraná, o índice é de 23%. Porém, o coordenador do Observatório do Crack, Eduardo Stranz, ressalta que a situação pode ser ainda mais grave, porque alguns municípios não respondem à pesquisa nem atualizam regularmente o banco de dados.
Na avaliação de Stranz, a entrada das drogas nos pequenos municípios coincide com o aumento da criminalidade e da evasão escolar. Ele comenta ainda que, com a interiorização, os municípios acabam sendo os únicos responsáveis por desenvolver políticas de combate e prevenção às drogas. “Não tem nenhum programa nacional e os estados também não desenvolvem ações consistentes no combate às drogas nem de prevenção. São os municípios, principalmente no interior, que se veem obrigados à resolver o problema da drogadição, porém é a parte do sistema com menores recursos”, diz.
No caso do Vale do Ivaí, por exemplo, Ivaiporã, que é um município que classificou a situação com índice alto, desenvolve o programa “Valorizando a Vida”, que tem por objetivo combater o uso de drogas entre adolescentes e jovens através de projetos educacionais. O trabalho é realizado com profissionais da área de psicologia, serviço social e de voluntários que abordam a educação para valores, com ênfase central na prevenção.
A secretária municipal de Assistência Social, Gertrudes Bernardy, explica que o trabalho é realizado através de ciclos de palestras e encontros semanais, onde são apresentados vídeos, depoimentos de usuários, entre outros. Também são desenvolvidas práticas educativas junto aos pais. “Nos dois últimos anos conseguimos resgatar vários adolescentes, que já estão inclusive no mercado de trabalho”, comenta Gertrudes.
Para a secretária, as maiores dificuldades encontradas são em convencer o usuário a viver longe das drogas. “Na verdade, a dificuldade não é tão grande em encontrar uma clínica. A maior dificuldade é conscientizar o usuário para que ele faça o tratamento. Por isso, que hoje estamos trabalhando muito o programa Amor Exigente todas as quartas-feiras com as famílias e os usuários. Algumas vezes, algumas famílias não apoiam, mas elas também precisam ser tratadas. Para quando a pessoa sair da clínica tenha um respaldo fora e não recaia”, argumenta.
Ela lembra que em março deste ano propôs aos municípios da região que trabalhassem o projeto Vida regionalmente. “Não adianta trabalhar somente Ivaiporã, estamos muitos próximos. Infelizmente, as cidades não aderiram”, afirma. (COLABOROU IVAN MALDONADO)


Reinserção é fundamental
O coordenador do Observatório do Crack, Eduardo Stranz, defende que o combate às drogas, de forma geral, exige trabalhos efetivos de prevenção, oferta de tratamento, que envolve em muitos casos necessita de uso de medicamentos e acompanhamento psicológico, além de reinserção do usuário na sociedade e repressão aos traficantes.
“O usuário, quando deixar o tratamento, precisa estar inserido na sociedade e, por isso, a promoção da inserção no mercado de trabalho no combate às drogas é tão importante”, comenta.
Um exemplo, que também vem de Ivaiporã, é do adolescente que chamaremos de Paulo, de 17 anos, que depois de ficar dez meses internado para se libertar do vício em crack, está fazendo estágio de cozinheiro no Centro da Juventude (CEJU), que atende cerca de 200 jovens.
“Foi muito difícil querer sair do crack porque eu vinha usando desde os 12 anos. Em 2015, quando cheguei aqui pela primeira vez e me ofereceram ajuda, foi uma decisão difícil, mas senti que precisava”, diz.

Falta rede de tratamento
Outro problema enfrentado pelos pequenos municípios é a estrutura de saúde. Na região, Apenas Apucarana e Arapongas contam com Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD). A dependência química, como um problema de saúde crônica, atinge cerca de 6% da população.
Segundo a assessoria da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), o Paraná incluiu a dependência química nas estratégias para abordagem de prevenção, de tratamento e de recuperação para este problema de saúde.
Ainda segundo a assessoria, o Estado dispõe de Incentivo Financeiro para os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) para implementação de ações de saúde mental na atenção primária. Bem como apoia os municípios na organização do atendimento nos territórios.
Além disso, o Serviço Integrado de Saúde Mental (SIMPR) é um dos pontos de atenção da Rede de Saúde Mental no Estado. A nota diz ainda que o serviço é composto por CAPS AD III e Unidade de Acolhimento com abrangência regional, com atendimento multiprofissional, tendo como objetivo a reinserção social. As regiões que contam com o SIMPR, são Guarapuava, Francisco Beltrão (sede em Marmeleiro), Cascavel, Cornélio Procópio (sede em Congonhinhas) e Toledo.