Cheiro de pólvora no ar acompanhado de explosões, uma na sequência da outra. Esta é uma das cenas que ficou na memória da aposentada araponguense Elza Maria Duarte, de 70 anos. Na época com oito anos de idade, ela foi uma das sobreviventes da explosão de uma fábrica de fogos no dia 4 de novembro de 1954, que atingiu parte do Grupo Escolar Antônio Racanello Sampaio. Foram treze mortes, sendo sete crianças, entre alunos e trabalhadores da fábrica, e seis adultos. A tragédia ganhou repercussão em diversos jornais de abrangência nacional.
Na lembrança, dona Elza, que estudou da 1ª a 4ª série na mesma escola, traz recordações do que viveu naquele dia e do que contaram ao longo de sua vida. “Foi terrível. Nós estávamos na sala de aula, era a primeira que dava para o pátio. Do outro lado já era a fábrica”, recorda. A explosão ocorreu poucos minutos antes do início das aulas, mas algumas crianças já se encontravam na escola.
A aposentada, que estava na 1ª série, conta que ela e alguns coleguinhas, ao ouvir barulho de bombinhas explodindo, se aproximaram da janela para ver. “A professora Noêmia chegou e gritou para que corrêssemos para a rua. E começou a explodir”, diz. Para conseguir sair da escola, dona Elza se recorda que contou com a ajuda de outra professora, Marta. “Um rolo de papel estava vindo em minha direção, a professora Marta pegou na minha mão e me enfiou debaixo de uma carteira. Depois me puxou e disse para eu pegar a rua”, fala.
A araponguense comenta que muitos ficaram atrapalhados sem saber onde era saída. “Porque o barulho era imenso. A cidade virou aquele vermelhão. Contam que dava para ver de longe. Até moradores de sítios vizinhos ouviram as explosões. Foi muito triste”, afirma.
“Quando começamos a correr, já estava tudo vermelho. Era muita poeira, pólvora e papel. Foi tudo para cima. Tinha muito papel, porque era usado para embrulhar os fogos na fábrica”, assinala. Ainda deste dia, Elza recorda que duas colegas de sala morreram na explosão. “Haviam pedido para a professora para ir ao banheiro. E nisso, eu também pedi. A professora disse não. Falou para eu esperar as duas chegarem para eu ir”, diz.
As duas coleguinhas de sala morreram dentro do banheiro, que ficava na parte externa da escola. “Uma morreu com a chupeta na boca. Ela ainda chupava chupeta, tinha saído da sala para chupar chupeta”, detalha.
O pai de Elza tinha um bar, que ficava a dez quadras da escola. No dia da explosão, as garrafas caíram das prateleiras. “Deu curto-circuito na cidade. A cidade virou um alvoroço, de pais procurando filhos. Tanto é que até hoje, quando chove, sobe aquela poeira, me vem tudo na mente”, garante.
Ela que saiu com um arranhão apenas na mão, nunca mais conseguiu dormir com a luz apagada. Além disso, diferente da maioria das pessoas que vibram com os fogos de fim de ano, dona Elza prefere ficar longe. “Mas consegui superar. Criei meus sete filhos. Não tenho medo de nada na vida, só de barata”, descontrai.
Sobreviveu porque faltou à aula
Sobreviveu porque faltou à aula
A araponguense Olga Cândida Duarte, de 72 anos, colega de escola e cunhada de dona Elza Maria Duarte, 70 anos, sobreviveu porque naquele dia não foi à escola. A sala de aula de Olga ficava ao lado da fábrica, dividida apenas por uma cerca de madeira, foi a mais atingida pela explosão. Na sala do lado, o teto desabou ferindo as crianças e levando a óbito duas delas.
“Eu me recordo como hoje: estava lavando uma fralda do meu irmão, de dois meses, no tanque, quando houve a explosão, fui jogada num banco”, recorda. A professora teria ficado doente naquele dia. De quatro salas, apenas três tiveram aulas.
Para Olga foi providencial a ausência da professora. “Foi a nossa sorte. Se tivesse tido aula, tínhamos morrido”, diz. Em casa, ela conta que a cena também foi aterrorizante. “A gente via passar aqueles rolos de papéis voando, que vinham da fábrica. Parecia que estava acabando o mundo”, descreve. Ela morava com a família na Rua Faisão e a escola ficava na Rua Ema, uma distância de cinco quadras aproximadamente.
Dona Olga comenta ainda que o pai, que estava trabalhando na Fazenda Bule, que fica cerca de 12 km do centro de Arapongas, também ouviu a explosão. “Na hora, nós ficamos sabendo que era a fábrica dos Pavani, que tinha explodido. Minha mãe costurava muitas roupas para eles. O menino se salvou porque foi brincar na casa de um amigo”, revela.
As duas meninas que morreram no banheiro da escola Yolanda, de 8 anos, e Maria Caralho, de 13 anos, eram primas de dona Olga.
Pesquisa resgata história do Colégio Antônio Racanello Sampaio
O agente educacional, Paulo Henrique Vieira Sante, que trabalha no Colégio Estadual Antônio Racanello Sampaio desde 2006, resolveu investigar mais a fundo uma parte da história da instituição marcada pela tragédia. A investigação começou como parte dos trabalhos do curso Profuncionário, ofertado pela Universidade Aberta do Brasil (UAB), Polo Apucarana.
“Eu já conhecia a história do colégio, mas não havia fatos documentados sobre isso. Muitas vezes, as pessoas se perguntavam por que a escola tem um poema que remete à Fênix, ave mitológica que ressurge das cinzas”, diz.
Durante a pesquisa, o que mais chamou a atenção de Paulo foi a dimensão da tragédia. “Vários jornais, como o Estado de São Paulo publicaram a matéria. Encontrei também reportagens em alguns jornais que se fundiram com a Folha de São Paulo”, diz.
Com a pesquisa, Paulo constatou, apesar das inúmeras divergências de informações, que foram 13 mortos, sendo sete crianças, seis adultos, e trinta e seis feridos. A explosão teve início próximo às 13 horas. Com o impacto da explosão, casas nas proximidades foram atingidas e partes de corpos das vítimas foram encontrados a vários metros do local da explosão. Dos familiares do proprietário da fábrica, apenas o proprietário, André Pavani e o filho, que não estavam no local, não sofreram ferimento algum.
Ele chama a atenção para as idades das vítimas, incluindo os trabalhadores da fábrica. Há vários adolescentes com 14 e 16 anos. “Eram muito jovens para lidar com manipulação de fogos, mas estávamos lidando com ordenamento jurídico diferente”, comenta.
Paulo também comenta que hoje, a legislação jamais permitiria que uma fábrica de fogos fosse construída em uma área residencial, muito menos ao lado de uma escola. Por causa da explosão, a escola, que ficava na Vila Araponguinha foi destruída, e construída em um novo endereço, no mesmo bairro. A doação dos dois terrenos foi feita pela pioneira Catharina Raccanello Sampaio.