Basta observar o comportamento de pedestres e motoristas por alguns minutos, na área central de Apucarana, para constatar um cenário com pouco espaço o respeito, respeito não só a pessoa, mas às próprias normas do Código de Trânsito Brasileiro. Por outro lado, sobra individualidade, imprudência e sinalização deficitária, o que gera riscos à vida. Porém, pedestres, motoristas e ciclistas reconhecem: falta consciência de ambas as partes. E mais: educação no trânsito, aquela não só no sentido de ser gentil, mas também de entender com clareza as sinalizações e suas diretrizes legais, também é fundamental para reverter cenário atual.
A vendedora apucaranense Gisele Alves, de 33 anos, trabalha há mais de um ano praticamente em frente ao cruzamento da Rua Ponta Grossa com a Rua Rio Branco, na área central de Apucarana. O local é alvo de constantes reclamações de quem tenta atravessar tanto em uma das faixas da Rua Rio Branco (na lateral da Pastelaria Mais Um) quanto da Rua Ponta Grossa (em frente à Farmácia Saúde). O motivo é que o motorista que estiver em uma dessas vias tem a opção de acessar as duas ruas e, como consequência, o pedestre fica vulnerável.
“É comum principalmente ver pessoas idosas não conseguirem atravessar a rua. Os carros viram da Rua Rio Branco para a Ponta Grossa e o motorista para no meio da rua”, relata a vendedora.
Na avaliação dela, a falta de respeito às normas de trânsito e à pessoa acontece dos dois lados. “Eu mesma já tentei atravessar fora da faixa e quase fui atropelada, mas numa outra situação estava atravessando na faixa de pedestre quando abriu o sinal. Estava no meio, não dava para voltar. A motorista acelerou para cima de nós. Mostrei que estava na faixa. Ela xingou e ainda fez gestos obscenos”, recorda. Na época, Gisele estava com sua filha Maria Eduarda, de 8 anos.
Ainda na mesma esquina, o alfaiate Antônio Aparecido Silvério, 69, se arrisca entre um carro e outro para conseguir terminar de cruzar a rua. “Alguns param na faixa, outros não. Mas, no trânsito, falta gentileza de forma geral. Se você está com o carro estacionado e dá seta para sair, dificilmente alguém para, para que você consiga sair com o carro”, diz.
Para evitar esse tipo de transtorno e não ter que se desgastar atrás de uma vaga para estacionar, seu Silvério, como é conhecido, prefere deixar o carro na garagem e ir trabalhar a pé. Aliás, nesse cenário hostil, o alfaiate faz questão de lembrar que os ciclistas também costumam não respeitar as leis de trânsito. “Hoje mesmo (terça-feira), um ciclista cruzou de repente na minha frente. É errado, porque pode causar um acidente”, comenta.
Imprudência de todos os lados
Na esquina seguinte, entre a Rua Ponta Grossa com a Rua Professor João Cândido Ferreira, o lojista Wilton Vilela, 36, é outro que vê imprudências diariamente. Em poucos minutos de entrevista, ele faz questão de mostrar pedestre atravessando fora da faixa, pedestre atravessando na faixa quando o semáforo está verde para os veículos, motoristas que não reduzem a velocidade quando o sinal está amarelo, além de estacionamento irregular.
“Quando o sinal fecha, passam ainda uns dois três carros. Acredito que essas situações ocorrem por falta de conscientização e de fiscalização também, porque quando não tem ninguém que fiscaliza, as infrações de trânsito continuam”, avalia.
“Aqui na Rua Ponta Grossa mesmo, o limite de velocidade é 40km/h, mas é comum ver carros a 70, 80km/h. Por isso, já houve acidente aqui na esquina até com morte”, recorda. O acidente que o lojista se refere aconteceu em setembro do ano passado entre dois ônibus. O condutor de um deles morreu ainda no local da colisão.
Leis de trânsito não são conhecidas com clareza
Na avaliação do superintendente de Trânsito de Apucarana, Silnei Bolonhezi, o trânsito de Apucarana tem passado por inúmeras mudanças, que visam melhorar a fluidez e a segurança de pedestres e motoristas. “Passamos de 45 semáforos para 60 e com a sincronização também facilitamos as travessias”, observa.
Bolonhezi frisa, entretanto, que para o trânsito funcionar de maneira adequada o tripé formado por educação, fiscalização e engenharia devem funcionar plenamente. Para isso, ele defende que é preciso conscientização. “É preciso conscientizar sobre as normas de trânsito desde cedo. É preciso ter educação de trânsito, porque as pessoas desconhecem regras básicas”, afirma.
Como exemplo, ele cita dois cruzamentos. Quem sai da Praça Interventor Manoel Ribas, a Praça do Redondo, pela Avenida Curitiba quando chega no semáforo, que tem na esquina com a Rua Osvaldo Cruz, a preferência é do motorista caso ele siga em frente, sentido a Praça Rui Barbosa. Caso precise virar à direita, na Rua Osvaldo Cruz, a preferência é do pedestre.
A mesma situação acontece, segundo Bolonhezi, na Rua Rio Branco com a Rua Ponta Grossa. “Se o motorista está na Rua Rio Branco e o sinal abre, a preferência é do motorista se continuar o mesmo sentido; caso vire à esquerda, a preferência é do pedestre”, esclarece.
O superintendente de Trânsito analisa que pedestres e motoristas precisam ter mais consciência e conhecimento. “Estamos a baixo da média de morte no trânsito, mas esse índice pode melhorar. Para isso, vamos conversar com a administração municipal para dar um novo passo nesse sentido. Já melhoramos a sinalização, instalamos mais semáforos, agora vamos trabalhar mais também a conscientização no trânsito”, afirma.