O aumento na recusa familiar tem preocupado as equipes de doação e transplante de órgãos nos hospitais da região. Enquanto o número de potenciais doadores se manteve no mesmo patamar nos dois últimos anos, a rejeição de membros da família do possível doador ao procedimento cresceu mais de 30% nos hospitais de Apucarana, Arapongas e Ivaiporã. No Paraná, os transplantes bateram recorde em 2017.
Os hospitais de Apucarana, Arapongas e Ivaiporã registraram 58 possíveis doadores em 2017, número 4,9% menor do que em 2016, que fechou com 61 notificações.
As 58 notificações do ano passado geraram 26 doações de órgãos. Entre os 32 casos de não-doação, 53% tiveram como causa a recusa dos familiares. O número aumentou 30,8% em relação ao ano anterior.
A assistente social Suselaine Cristina Carrascoso faz parte da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do Hospital da Providência, em Apucarana. Segundo ela, um dos principais motivos para a recusa das famílias é a falta de diálogo prévio sobre o assunto. “Muitas famílias não conversam sobre a doação de órgãos e, quando um momento crítico como este acontece, muitos ficam sem saber como agir. Algumas poucas famílias também recusam por questões religiosas ou pela vontade de preservar o corpo íntegro, sem se atentar de que poderiam, com as doações, salvar muitas vidas”, afirma.
Suselaine aponta ainda a desconfiança de algumas pessoas com relação aos procedimentos. “Muita gente tem dúvidas sobre o processo de doação. No entanto, este é um processo encarado com a maior seriedade e rigor possíveis, visto que aquele órgão será destinado a outra pessoa. Outra dificuldade que algumas pessoas têm para entender é a morte encefálica, que é quando o paciente entra em óbito, mas o coração continua batendo. No entanto, esta é a única condição em que é possível a doação de órgãos. Em caso de parada cardíaca, apenas córneas e tecidos podem ser doados”.
Ela lembra que o processo de doação de órgãos pode inclusive beneficiar a família do doador. “É algo que, muitas vezes, auxilia no processo do luto. As famílias recebem um amparo ao saber que, apesar do momento difícil em que se encontram com a perda de um parente, há a possibilidade de salvar outras vidas. Por isso, é importante que as famílias conversem e que as pessoas manifestem o desejo de serem doadores”.
No Brasil, a doação de órgãos depende do consentimento da família, mesmo que o possível doador tenha se manifestado em vida através de um documento. Após a detecção da morte encefálica no paciente, as CIHDOTTs são responsáveis pelo processo de acolhimento da família e também da oferta para a doação de órgãos do paciente. Estas comissões são formadas, geralmente, por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.
Paraná bate recorde de transplantes
O ano de 2017 foi de recordes no Paraná para os transplantes de rins (482), fígado (265) e coração (39). Devido a um conjunto de ações para favorecer este tipo de procedimento, o Paraná se mantém como segundo Estado com melhor desempenho do país na área de doação, de acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos.
Na comparação com 2016, o Estado teve um crescimento de 12,5%, passando de 718 para 808 transplantes de doadores mortos realizados. Se comparado com o ano de 2010, quando houve 184 procedimentos no Paraná, o aumento e chega a 340%. De acordo com a coordenadora do Sistema Estadual de Transplantes do Paraná (SET/PR), Arlene Badoch, esses aumentos só foram possíveis graças a um conjunto de fatores.
“Desde de 2011, trabalhamos diferentes pilares. Investimos muito na educação permanente das equipes que atuam nos hospitais e também realizamos um trabalho efetivo com o transporte dos órgãos, tanto terrestre quanto aéreo. E com isso esses resultados foram alcançados”, destaca Badoch.
Além dos órgãos, tecidos como a córnea, pele, ossos, valvas cardíacas e tendões também podem ser doados. Todas as doações são feitas por meio do Sistema Estadual de Transplantes, que é encarregado pela coordenação e gerenciamento da fila de quem espera por um órgão no Paraná.
A partir de 2018, o Estado passa a fazer também o transplante de pulmão – único ainda não ofertado no Paraná. O procedimento ocorrerá no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba.