“Antes eu sentia a vida escapando. Hoje, depois de 20 dias de tratamento, posso dizer com toda a certeza: eu estou viva!”. O relato acima é de uma mulher com câncer terminal, desenganada pelos médicos e que passava os dias na cama, sem forças para levantar. Menos de um mês depois, ela voltou a cozinhar, caminha normalmente, faz exercícios e frequenta até aulas de pilates. É impossível não se impressionar com histórias como essa, que têm se tornado cada vez mais comuns, atribuídas pelos pacientes a uma única substância: a fosfoetanolamina.
Antes de mais nada, é preciso deixar claro: a fosfoetanolamina não é um remédio. Para que a substância seja considerada medicamento, é obrigatório que sejam realizados testes em humanos atestando a sua eficácia e, posteriormente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve aprová-la. Isso ainda não aconteceu com a ‘fosfo’, como alguns pacientes a chamam.
Mas afinal, o que é a tal substância? “É a esperança”, garante Amaryllis Perez, de 63 anos. Ela conta que descobriu um câncer no intestino em maio do ano passado. “Foi em um exame de rotina. Nunca manifestei nenhum sintoma. É um baque muito grande quando o médico fala que o seu câncer é mutante, em estágio IV e que está em fase de metástase. É o pior cenário possível”, conta ela.
Após dois pacotes de quimioterapia e cirurgias para a retirada de diversos tumores no intestino e fígado, o resultado era desolador: febres diárias de até 40 graus, diarreia, dores abdominais e os tumores restantes ainda crescendo. Amaryllis conta que passava o dia todo na cama, sem forças, sob pilhas de cobertores. Os medicamentos não faziam efeito. Foi quando a filha Marianna soube da fosfoetanolamina. “Fui atrás. Os relatos eram promissores. Entramos com o pedido na Justiça e, há 20 dias, as cápsulas chegaram. E agora você vê o resultado”, diz a filha.
Hoje, Amaryllis sobe escadas, organiza jantares para amigos próximos, se exercita. “Vou fazer uma ressonância magnética no início de novembro para ver como estão os tumores. Não sei se diminuíram ou não. Conversamos com o desenvolvedor da substância e ele diz que o câncer pode ser curado. Mas a única coisa que quero é, enquanto eu viver, ter qualidade de vida. E isso eu estou conseguindo”, diz ela.
Amarillys toma três cápsulas por dia, junto com um polivitamínico encontrado em farmácias. Os comprimidos vêm em saquinhos plásticos, sem bula ou rótulo, já que não são oficialmente um remédio. Essa característica preocupa a comunidade médica e científica. “Qualquer substância, para se tornar medicamento, precisa passar pelas fases de estudo clínico para que se conheça eficácia, efeitos colaterais e outras características. É temerário liberar para a população um medicamento sem que essas fases sejam cumpridas”, explica o médico Osvaldo Szenczuk.
Ele afirma ainda que existem diferentes tipos de cânceres, com cada tumor diferente um do outro. Logo, não existe um único remédio que possa combater eficazmente todos os tipos. “É preciso estudo de cada caso em específico para que o tratamento seja feito da melhor maneira. Já li relatos de melhora após o uso da fosfoetanolamina. No entanto, respostas do corpo como as relatadas também existem com o tratamento convencional. Mais pesquisas precisam ser feitas sobre a substância”, assinala
Cerca de 30 apucaranenses aguardam decisão judicial
Por não se tratar de um remédio, a fosfoetanolamina só é conseguida através de liminar judicial. Em Apucarana, além de Amaryllis Perez, apenas mais uma pessoa conquistou o direito de receber as cápsulas. O advogado apucaranense Paulo Gabardo foi quem entrou com os dois processos.
“Existem cerca de 30 outras pessoas em Apucarana levantando os documentos necessários para entrar com o pedido na Justiça. O processo é aberto na Justiça de São Carlos, onde fica o laboratório da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvedora da substância”, diz.
O resultado não tende a ser demorado. “A Justiça de lá já está mais a par da situação. Decisões já saíram em 48 horas, obrigando a USP a enviar as cápsulas em até cinco dias. Muita gente tem procurado essa alternativa. Estou, inclusive, ensinando advogados de fora a entrar com o processo”, afirma.
A USP, recentemente, divulgou um comunicado lembrando que “não existe demonstração cabal de que [o remédio] tenha ação efetiva contra a doença: a USP não desenvolveu estudos sobre a ação do produto nos seres vivos, muito menos estudos clínicos controlados em humanos”. A nota diz ainda que a universidade irá continuar a cumprir, dentro de suas capacidades, os centenas de mandados judiciais que tem recebido nas últimas semanas.
As discussões chegaram a Brasília. Duas comissões do Senado vão debater na próxima semana sobre a substância. (R. V.)