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Uma corrida de desafios

Vanuza Borges

| Edição de 07 de fevereiro de 2016 | Atualizado em 02 de dezembro de 2016

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Correr a “Prova 28” é um desafio para iniciantes da modalidade. Fazer o trajeto exige fôlego para vencer as descidas e subidas e uma dose de atenção com quebra-molas, copinhos de água espalhados pelo chão e com os outros participantes também. Agora, imagine passar por tudo isso sem enxergar nada e um ano e quatro meses após passar por um autotransplante de medula. Foi exatamente o que fez o apucaranense Cláudio José Leal, de 46 anos.

Imagem ilustrativa da imagem Uma corrida de desafios

Ele participou da 54ª Prova Pedestre XXVIII de Janeiro, tradicional corrida de rua de Apucarana, que ocorreu no último dia 30, com a ajuda de um guia, o empresário Eduardo Carvalho da Cruz, 38. A dupla, parceira há quase um ano, concluiu a prova de 5 quilômetros em 35 minutos e levou o terceiro lugar na categoria paraolímpica.

Cláudio, que é massagista há mais de 20 anos, revela que começou a correr após passar pelo segundo tratamento para combater um câncer linfático. A atividade física fazia parte das recomendações médicas para ajudar na recuperação, porém ele tinha que evitar lugares fechados, uma vez que o organismo estava debilitado por causa das sessões de quimioterapia e do autotransplante de medula óssea, que ocorreu em setembro de 2014. “Fiquei 23 dias isolado no Hospital Universitário de Londrina”, recorda.

Sete meses depois, ele decidiu participar de sua primeira corrida de rua. A ideia surgiu após ouvir a prima Jully Anne Michelin comentar sobre a primeira edição da Unimed Night Run, que aconteceu em abril do ano passado. Nesta prova, ela foi a guia dele.

Porém, antes de correr pela primeira vez. Outra prima, a educadora física Maricélia Rossi, sugeriu que Cláudio passasse a treinar na academia em que ela trabalha. Uma semana depois acontecia o Circuito Sesc Caminhada e Corrida de Rua e lá estavam eles. “Cheguei quase morrendo. Corria uma quadra e caminhava duas. Eles fizeram o circuito de 5 km em 44 minutos. “Por causa da quimioterapia, a minha oxigenação é baixa. Hoje em dia, já melhorou muito”, avalia.

PARCERIA

E foi assim que ele começou a correr. Após duas semanas de atividade com as primas, o empresário Eduardo Carvalho da Cruz, que já era cliente de Cláudio há mais de dez anos e treina na mesma academia, disse que também queria correr com o trio e virou o guia oficial. Para formalizar a parceria, surgiu a ideia de fazer um uniforme. O objetivo era mostrar a causa e também incentivar outras pessoas.

O lema da dupla é: “Celebrando a vida e Correndo pela cura do câncer”. O câncer dele e da prima Milcélia Rossi, irmã gêmea de Maricélia. “A camiseta quem bolou foi a Maricélia para incentivar a irmã, porque era elas que corriam juntas. O câncer é difícil, mas é possível superá-lo”, confia.

Em todas as corridas, eles fazem questão de levar essa mensagem. Juntos, Cláudio e Eduardo já participaram de seis corridas, além de Apucarana, em Arapongas, Jandaia do Sul, Maringá e Londrina. “A corrida foi uma superação do câncer e não propriamente da falta de visão”, frisa Cláudio, que deixa claro que só consegue se dedicar a atividade por causa do seu guia. “O Edu são meus olhos na corrida. Ele abre mão do tempo dele, que facilmente poderia completar a prova em 25 minutos, para correr comigo”, sublinha.

O ACIDENTE - Cláudio perdeu a visão durante um acidente de carro, em Londrina, quando tinha vinte anos. “Deixei de enxergar com o olho esquerdo na hora. Depois de 13 cirurgias num período de cinco anos também perdi a visão do olho direito”, diz. Neste período, ele procurou se adaptar, aprendeu braile e andar de bengala. Também fez curso de massagista, profissão que segue até hoje. “Sempre fui muito consciente da situação”, diz em tom de aceitação.

Relação de confiança mútua

O empresário Eduardo Carvalho da Cruz, 38 anos, define de um jeito simples a sua função nas corridas: “Ser guia é ser os olhos do Cláudio”, resume. Durante as provas, Eduardo, que é adepto de corrida de montanha, narra todos os detalhes do ambiente, desde buracos, quebra-molas, presença de competidores a copinhos d’água para Cláudio. “Tudo isso foi algo espontâneo, que surgiu na hora. Não tive nenhum treinamento específico. É algo meu e dele. Uma relação de confiança”, sintetiza o empresário. Por outro lado, Cláudio brinca com a situação: “Eu confio cegamente no Edu”.

Para facilitar a corrida, Cláudio desenvolveu um acessório simples e funcional. Feita de elástico, a guia tem nas duas extremidades espaço para colocar o pulso e no meio um pedaço de cano de chuveiro. A parte mais rígida serve de apoio para Cláudio em pontos de maior aglomeração de pessoas. Ele também fez um acessório para ajudá-lo a manter centralizado na esteira e correr com as mãos livres.

Cláudio treina três vezes por semana na academia, frequenta todas as quintas-feiras, sábados e domingos um clube da cidade para dançar. Aliás, na pista de dança tem fama de “pé de valsa”. Na rotina, Cláudio ainda tem tempo para aulas de teclado.

Já Eduardo divide o tempo entre a loja de calçados e os treinos na academia. Seu objetivo são as provas de corridas de montanhas, de obstáculos e militarizadas. “Corrida de rua só com o Cláudio. É um aprendizado especial”, garante. O objetivo para a dupla na próxima Prova 28 de Janeiro é fazer a prova em meia hora.