Entre as experiências que passou em sala de aula, uma não sai da memória da professora de Artes, de 28 anos. A apucaranense, que prefere não ter o nome divulgado, foi atacada por uma aluna no ano passado enquanto trabalhava. Com o golpe da estudante, que tinha 14 anos, a professora foi ao chão. O ataque revela um cenário de violência nas escolas. Na região, cerca de 55% dos professores já sofreram algum tipo de agressão física ou verbal em sala de aula. Os dados são do questionário da Prova Brasil 2015, aplicado a diretores, alunos e professores 5º e do 9º ano do ensino fundamental.
A pesquisa foi feita em todo território nacional. Na região, 376 professores de treze municípios participaram da pesquisa. O questionário só foi aplicado em municípios com mais de três escolas com o intuito de preservar o anonimato dos participantes. O levantamento também revela que 9% dos professores entrevistados na área de abrangência do Vale do Ivaí mais Arapongas sofreram algum tipo de ameaça direta por parte dos alunos. No Brasil, mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por estudantes, o que representa 8% dos entrevistados.
Das ameaças, 4,7 mil professores sofreram atentados à vida nas escolas em que lecionam no Brasil. Na região, dos entrevistados, apenas um afirmou ter passado por essa situação. O caso relatado na pesquisa é referente a uma escola de Apucarana, que teve 72 entrevistados de diferentes escolas.
Porém, as agressões não ocorrem apenas com professores e funcionários, mas também entre estudantes. De acordo com a pesquisa, 71% dos professores, o que equivale a 183,9 mil, disse ter presenciado agressão física ou verbal de alunos a outros estudantes da escola. O índice é o mesmo nos municípios da região. O caso mais grave do gênero, na abrangência do Núcleo Regional de Educação (NRE), ocorreu na última semana, por exemplo, em uma escola em Cambira, quando um aluno matou o outro no pátio do colégio.
DOENÇA SOCIAL
Vítima de agressão verbal, a pedagoga e professora de Sociologia, que leciona há 12 anos na rede pública de Apucarana, avalia a violência como fenômeno social. “Infelizmente, a violência verbal é algo frequente nas escolas, assim como em outras instituições, a escola não é um espaço à parte da sociedade e a violência hoje é uma doença social”, avalia.
Ela, que tem 31 anos e também prefere não dar o nome, comenta que é comum se deparar com a violência no trânsito, no trabalho, em casa e até mesmo em locais de lazer. “Porém, não podemos naturalizar tais atitudes. A violência não nasce na escola, nasce em casa. Por isso, o combate à violência familiar é tão importante”, acredita.
De acordo com a pedagoga apucaranense, não há uma idade em que a violência é mais frequente, mas quanto mais velhos os alunos, mais grave as agressões. “Geralmente, o aluno violento é o que vivencia violência na família”, sublinha.
Para tentar solucionar o problema, ela diz que a primeira atitude tomada é a conversa. “É preciso buscar as causas. Neste momento, é necessário também a intervenção do pedagogo, inclusive, para uma conversa com a família”, diz.
Essas situações de desrespeito já a fez pensar em desistir. “Já pensei em desistir sim, num primeiro momento, porém quando deixo de pensar a violência como um fato isolado e reflito com análise na conjuntura social, percebo que é uma resposta a outros tipos de violência ou negligência”, avalia.
Bons alunos são incentivo, diz professora
A situação não é diferente com uma professora de matemática, que leciona há 15 anos na rede pública e também pediu anonimato.
Moradora de Cambira, ela revela que muitas vezes chegou a ficar mal diante de xingamentos de alunos. “Hoje, já não sofro tanto, tenho turmas melhores. Quando a coisa é mais séria chamamos os pais. E aí percebemos que o aluno é bom demais pelo tamanho da desestrutura familiar”, ressalta.
Apesar das dificuldades, ela garante que nunca pensou em desistir. “Desrespeito maior nós sofremos todos os dias por parte dos governantes e da sociedade. O que me motiva a seguir é o carinho deles, os olhos brilhando quando conversam com a gente. Muitos realmente não querem nada, mas quando você tem alunos que pensam em melhorar, em crescer, é suficiente para continuar”, afirma.
Ela se define como uma apaixonada pela educação e pelos alunos também. “Acho que de certa forma posso fazer a diferença na vida deles. Quando entram na faculdade, voltam na escola para muitas vezes agradecer o fato de se preocuparem tanto com eles. Isso é motivador”, assinala.
Professores não têm rede de apoio
A professora de Artes, que foi agredida em sala de aula de Arapongas, revela que ficou cerca de um mês sem conseguir ir voltar à sala de aula. “Eu não voltar a sala de aula. A direção não chegou a passar o caso adiante. A aluna era diagnostica com síndrome de asperger e tinha uma cuidadora somente para ela, menos para as minhas aulas e para as aulas de educação física”, revela.
Após a agressão e da denúncia do caso ao Núcleo Regional de Educação (NRE), de Apucarana, a cuidadora também foi designada também para a disciplina de Artes.
A chefe do NRE, de Apucarana, Maria Onide Balan Sardinha, observa que a violência é um fenômeno social, que tem raízes diversas. “O comportamento não só mudou em sala de aula, mas também em casa. Nas escolas, nós trabalhamos para que as aulas sejam cada vez mais interativas, envolvendo os alunos, e, desta forma, tentamos evitar a indisciplina, que em casos graves, resulta na agressão física”, diz.
Em casos de agressão, Maria Onide lembra que a equipe pedagógica da escola é acionada junto com a direção. “Em casos de indisciplina, o aluno é orientado e, em casos graves, os pais são chamados. Já quando ocorre agressão, a Patrulha Escolar é acionada e o Conselho Tutelar também”, diz.
Sobre uma rede de apoio específica ao professor agredido, Maria Onide revela que a Secretaria de Educação não dispõe de uma rede de atendimento específico. “O professor, caso necessário, deve procurar a Rede de Proteção, através do próprio setor pedagógico, e também via Sistema de Assistência à Saúde”, orienta.