COLUNA DA TRIBUNA

min de leitura

O grito do bem-te-vi

Da Redação

| Edição de 06 de janeiro de 2026 | Atualizado em 06 de janeiro de 2026

Fique por dentro do que acontece em Apucarana, Arapongas e região, assine a Tribuna do Norte.

Há anos, minha mãe mantém um ritual simples e silencioso no fundo de casa. Todas os dias, como quem cumpre um pacto tácito com a natureza, ela coloca porções de arroz cozido em um recipiente na edícula e, ao lado, uma vasilha com água. Não é um gesto pensado para ser grandioso, tampouco carregado de intenções pedagógicas. É apenas um hábito. Um convite discreto para que os pássaros façam daquele espaço um ponto de parada, de convivência e de sobrevivência.

Com o tempo, acabei criando o meu próprio ritual. Sempre que posso, sento-me ali, em silêncio, apenas observando. Não interfiro, apenas observo. Pela lente quase involuntária do método da observação participante, passei a reconhecer os frequentadores assíduos daquele pequeno território: pardais, tico-ticos, pombos e, eventualmente, um bem-te-vi. Cada um com seu ritmo, seu modo de chegar, de ocupar o espaço e de se relacionar com os outros.

Os pardais e os tico-ticos são os primeiros a aparecer. Chegam em pequenos grupos, se alternam entre o arroz e a água, banham-se, sacodem as penas e seguem a rotina com uma naturalidade quase didática. Dividem o espaço sem alarde, sem tensão. Não se incomodam com a presença uns dos outros e tampouco demonstram qualquer hostilidade quando os pombos se aproximam. Há ali uma convivência pacífica, quase civilizada, marcada pela aceitação da presença alheia.

Os pombos chegam depois. Inicialmente, quando é apenas um, o ambiente se mantém equilibrado. Ele se alimenta, circula, convive. Mas basta a chegada de outro pombo para que o cenário mude. Pardais e tico-ticos, ainda que não sejam atacados diretamente, recuam. A presença dos pombos em maior número cria uma tensão difusa. Entre eles próprios, a convivência também é instável: rodeiam-se, medem forças, disputam espaço sem confronto direto, até que alguns se vão e reste apenas um ou poucos. A dificuldade não está no diferente, mas no semelhante que concorre. E então, quase sempre sozinho, chega o bem-te-vi. Embora sua beleza seja imediatamente percebida e muitos lhe atribuam uma carga de significados simbólicos e espirituais, seu grito estridente antecede a presença e, em poucos segundos, o efeito é imediato: todos se retiram. Pardais, tico-ticos e pombos desaparecem. Ele fica só. Come, bebe água e domina o espaço por completo. Não há partilha nem coexistência, somente imposição sonora, comportamental e territorial.

Essa sequência tornou-se um espelho incômodo do comportamento humano. Assim como os pardais e tico-ticos, há pessoas que convivem com urbanidade, respeito e tolerância, capazes de dividir espaços, ideias e diferenças sem enxergar o outro como ameaça. Há também os pombos sociais, que convivem razoavelmente bem em pequenos grupos, mas que, ao se fortalecerem, passam a disputar espaço até entre si, criando ambientes hostis que afastam os diferentes. E, por fim, surgem os bem-te-vis humanos: intolerantes à proximidade e à divergência, que gritam, impõem e ocupam o espaço público como se fosse propriedade privada, silenciando vozes e expulsando o diálogo.

Essa representação lúdica está longe de ser ingênua: ela escancara o quanto ainda precisamos aprender sobre a vida coletiva, onde urbanidade é condição, tolerância é necessidade e convivência não se constrói pelo grito ou pela exclusão. Cercados de pardais, tico-ticos, pombos e bem-te-vis, identificar comportamentos é fácil. O difícil é promover mudanças, pois enquanto aceitarmos que os mais ruidosos dominem os espaços, continuaremos presos a ambientes hostis, quando o verdadeiro aprendizado está nos que sabem conviver em silêncio.