Na noite do dia 31, Eduardo sente algo raro.
Não é alegria plena, nem paz duradoura. É esperança.
Uma esperança frágil, quase infantil, mas verdadeira.
Ele acredita que agora vai. Não como quem faz teatro, mas como quem precisa acreditar para continuar. Naquela virada, ele se permite desejar sem cinismo. Deseja ser diferente, viver com mais sentido, sofrer menos pelos mesmos erros. Por alguns minutos, ele realmente crê que pode haver outro caminho.
E isso é bonito.
Porque desejar, de verdade, exige coragem.
O problema nunca foi a falta de vontade. Eduardo quer mudar. Quer mesmo. O problema é o que vem depois do desejo, quando a empolgação se cala e sobra apenas a responsabilidade. Quando ninguém aplaude. Quando não há rito algum para empurrá-lo adiante.
Mudar cobra constância. Cobra renúncia. Cobra escolhas que doem. Cobra dizer não ao conforto conhecido. E é nesse ponto que Eduardo hesita. Não porque seja fraco, mas porque é humano. Ele se cansa antes de começar. Ele teme perder aquilo que, mesmo lhe fazendo mal, ainda lhe é familiar.
Então ele adia.
Um pouco hoje. Outro pouco amanhã.
E quando percebe, está exatamente no mesmo lugar, com a diferença cruel de saber disso.
Ao longo do ano, a esperança vai murchando sem escândalo. Não explode. Não grita. Apenas se acomoda. Eduardo aprende a conviver com a frustração como quem aprende a conviver com uma dor antiga. Ela incomoda, mas já não surpreende.
E quando o ano termina, ele conclui que não foi um bom ano. Como se o tempo tivesse falhado com ele. Como se o calendário fosse o responsável pela repetição de seus próprios limites.
Então ele espera de novo.
Outro ano. Outra virada. Outra chance de desejar sem se comprometer.
Outra esperança limpa, que ainda não conhece o preço que será cobrado.
Há algo de trágico nisso. E um pouco mórbido também. Porque Eduardo não quer mudar a vida, quer mudar a sensação. Quer sentir que pode, mesmo sem fazer. Quer acreditar de novo, porque acreditar dói menos do que agir.
Mas o ano seguinte não traz nada de novo.
Ele apenas oferece o mesmo palco, esperando que o ator mude o texto.
Talvez a pergunta que Eduardo evita, e que nos ronda em silêncio, não seja o que ele deseja para o próximo ano, mas até onde está disposto a ir para não se decepcionar de novo consigo mesmo.
Porque esperança sem entrega não é começo.
É apenas mais uma forma elegante de esperar. E afinal, o que estamos esperando?